quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

VII - Parque de urubus


A picape branca tinha sido tomada emprestada por Silva com o seu amigo Julinho às sete e meia da tarde na véspera da quarta-feira de cinzas. Uma hora antes Silva havia contactado Tilu e explicado-lhe o plano. Tilu disse que os burros não conseguem marchar muito bem de madrugada e, além do mais, pelo que Silva havia proposto, o certo seria usar um carro para evitar contratempo e riscos. Se a polícia pega? "Bobeira!" disse Silva ao telefone, "os ômi tão na praia cuidando do cu dos cachaceiros...hé-hé". Mas Tilu pensava certo. Para o serviço, seria preciso um carro e mais um homem. Três no total. Tilu estava com muito cansaço. Silva, sem conseguir conversar com Adival - que tinha saído do Regional às cinco e de lá foi se arrumar para o culto às 19:00 horas - decidiu que passaria pessoalmente no culto e enquanto isso iria em busca do terceiro homem. É que, na correria, Adival deixara o telefone descarregar. Era este, no mais, o arquiteto principal de todo aquele plano que seria executado naquela madrugada. Sem possibilidade alguma de qualquer outra alteração. Era preciso que fosse assim.

Silva passou então às 19:30 no culto. Parou na porta da igreja, desceu e chamou Adival que interrompeu o culto por alguns minutos. 

- Desculpa, pastor, não consegui te ligar, consegui o Mirim. Ele vai nos ajudar, tá ali no carro, só vim pra confirmar o horário.
- O celular tinha descarregado, não posso falar muito agora, vou ver se adianto as coisas aqui para não ter atraso nenhum, ok? Pode ir lá pra sua casa e aguardar minha ligação!
- Certo, pastor! Paz de Cristo!
- Amém, irmão! Fé que esse prefeitinho safado vai ter o que merece! 

Adival deu cabo na cerimônia alguns minutos depois. Terminou com um pedido de oração para o pastor titular da igreja que se encontrava internado no Regional. Ao fim, um ou dois fiéis quiseram-no intercalar sobre mais informações,  sobre ele não ter falado nada de aves de rapinas no Novo Testamento, respondeu rapidamente que seria o tema do próximo culto, e assim ele saiu desenrolando-se feito uma cobra na mata fechada e foi rumo à sua casa, dois quarteirões depois. Apertava o passo. Chegou em dez minutos. Tirou o paletó. Tomou um banho, pegou o celular que tinha deixado carregando enquanto comia alguma coisa e foi até a varanda, onde guardava uma caixa enorme cheia de sacolinhas plásticas de supermercado, pegou muitas, colocou dentro de uma outra maior. Assim, ligou para Silva e dissesse que pudesse vir. Quando chegasse, desse um toque pelo celular. O bairro estava escuro. Pouca gente. Apesar de ser um bairro pobre no qual poucas pessoas viajam para o carnaval, era quase meia-noite e todos dormiam. Silva chegou exatamente às 23:40. 

Adival entre-abriu a porta, fez um gesto e Silva e Mirim adentraram em sua pequena sala. Uma pequena tv de led, 14 polegadas, um aparelho de dvd e vários discos de palestras religiosas que se posicionavam contra o aborto, a homossexualidade, a arte, a música. Um catálogo de proibições. Depois que os dois se sentaram, Adival perguntou a Silva:

- Trouxe as lanternas? E as sacolas?
- Sim, pastor, passei uma fita isolante na placa do carro..
- Fita isolante? Com medo das câmeras?
- É, vi algumas instaladas na praça e...
- Não funcionam! Posso te garantir! Câmera só fica desligada nessa cidade. Um fiel lá da igreja que trabalha na prefeitura disse que essas câmeras só são fachadas. Quanto à PM, não se preocupe. Confirmei com um amigo que trabalha como soldado, está na praia, sem que ele percebesse o interesse de minha dúvida, é claro, mas a cidade hoje, de terça pra quarta tá entregue às moscas, aos urubus, ao Deus dará. E se Deus quiser, Deus vai permitir nossa vingança!
- Amém! 
- Ô Mirim, disse Adival olhando para o sujeito convocado por Silva, você já está sabendo do nosso projeto? É coisa simples, viu...e precisamos do seu compromisso em guardar o segredo dessa ação de hoje à noite. 
- Deus me livre de trair um homem de Deus! O Silva me explicou, só ainda na dúvida qual o motivo de fazer isso, apesar de concordar, lá na rua de casa, tá feio na carniça.
- Pois saiba que passaremos primeiro na sua rua então! É aqui perto né? O motivo, bem, é uma lição. Olha o que essas pragas fizeram com o pastor lá da igreja! Eu não falei no culto, mas a situação não é boa. Ele tem mais de 60 anos, tem um pouco de osteoporose, a situação não está boa mesma!
- Deus proteja nosso pastor! Gosto dele, replicou Silva.
- Então, Mirim, basicamente é isso, o prefeito, aquele puto...ele vai ver o que vai encontrar o que todo cidadão dessa cidade vem encontrando quando costuma sair de casa...

Mirim havia soltado um leve sorriso. Adival perguntou o porquê:

- Perdão, pastor, confesso que não estou acostumado a ver um homem de Deus xingando...
- Nosso Deus, nosso bom Deus, só ler a Bíblia, Mirim, gosta de uma vingança se ela for justa. Vai ter vingança sim. Bem, chega de falar. Vamos começar o serviço. Até duas da manhã a gente acaba isso. Se o ambiente estiver mais tranquilo, a gente faz um extra. Ok?

Todos balançaram a cabeça concordando. Adival saiu por último, fechou a casa e entraram na picape. Era um carro já tão surrado que parece com o tempo de uso, sua cabine acabou se alargando cabendo três pessoas o normal sendo duas. Jogaram todo o material que precisavam na carroceria. Não chovia. A noite ia ser boa. Se Deus quiser, e Deus queria.

Quando saíram de casa, o relógio já marcava os primeiros minutos da quarta-feira de cinzas. A rua de Mirim fora a primeira, como prometeu o pastor. Só naquele endereço, e nem era rua comprida, os três conseguiram encher até certa altura a carroceria da picape. Como estavam começando e precisavam ver a situação da cidade, se realmente estava tudo calmo, decidiram não deixar muita coisa à vista. Foram pela avenida Getúlio Vargas até a altura da CDC e ali entraram pela rua do shopping. Nem mesmo um cachorro ou um gato, animal noturno, estavam perambulando. Seguiram então e saíram pelo fundo da rodoviária velha. Viram dois rapazes, pareciam andarilhos, andando por lá. O carro seguiu lentamente. O único receio de encontrar algum movimento seria no posto de combustível que também estava fechado àquela hora. Chegaram então na prefeitura. Tudo ainda em silêncio. Silva estacionou o carro perto da entrada. 

- Aqui está bom! confirmou Adival.

Por segurança, Silva desceu do carro e ficou observando as redondezas. Adival mais Mirim rapidamente começaram o serviço: de sacolinhas plásticas na mão utilizadas como luvas, começaram a retirar da carroceria todo o lixo que eles haviam recolhido. Metade era só da rua de Mirim. Um fedor horrível. Conseguiu produzir um efeito aquelas sacolas na entrada do prédio municipal. 

- Agora vamo pra segunda viagem, disse Silva entrando no carro. Para onde, pastor?
- Agora, em homenagem ao pastor Josivânio, vamos lá na rua dele.

O carro voltou pela avenida Marechal Castelo Branco. Um carro passou por eles na altura do supermercado Faé. Aparentemente só um motorista. Talvez alguém perdido. Alguém indo em direção à rua Mauá. Os puteirinhos estavam fechados. De puto mesmo, apenas o espírito de Adival. Em menos de trinta minutos, eles foram até o endereço do pastor Josivânio e recolheram toda a lixaiada. Ainda podia-se ver os detritos espalhados que haviam feito o pastor Josivânio, que correra atrás dos urubus para espantá-los, cair e se estelar no chão. "É por você, pastor" pensou Adival enquanto colocava as sacolas. Livres para agir, o trio viu que não precisaria esconder o lixo até o bordo da carroceira. Essa viagem foi cheia. Conseguiram pegar o lixo de duas ruas e todo ele foi adicionado à porta da prefeitura. Assim foram e fizeram mais uma viagem ao Teixeirinha limpando duas ruas, foram ao Bela Vista, uma rua e mais uma do Centro para acabar a tarefa. Durante toda essa coleta ilegal, não viram mais uma alma penada se quer. E se vissem, o pastor estaria ali para arrebanhá-la! Ao final, só não se assustaram mais com o entulho produzido porque a iluminação àquela hora, duas e quinze da madrugada, era precária. O monte de lixo alcançava de quatro a cinco metros de altura ocupando toda a calçada. 

- Os urubus vão se divertir amanhã! Praticamente um parque de diversão essa prefeitura virou! Disse triunfante o pastor Adival e todos eles sorriram. Acho que terminamos por aqui. 

Silva deixou Mirim em sua casa. O pastor apertou a mão dele em agradecimento ao sair do carro. Disse que Deus o abençoaria por essa ajuda. Mirim só por isso se sentiu recompensado. Silva depois deixou Adival em casa e também pelo pastor foi abençoado, então, voltou sozinho. Devolveria o carro, sem as placas adulteradas, logo cedo para o seu amigo. Adival, ao entrar em sua morada, cansado, fedendo, estava estranhamente e plenamente feliz. Tomou um banho. Antes de deitar, se ajoelhou na beira da cama e disse:

- Obrigado, meu bom Deus por ter nos coberto de proteção essa noite! Sei que fizemos vossa vontade! Demos aos carnicentos que nos destrói a vida a carniça que eles merecem! 

Como se estivesse ainda no altar da igreja, Adival perguntou e ele mesmo respondeu:

- Amém?!
- Amém!

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