I - Solidão e carnaval
O carnaval, se fosse gente, não veria cor nem credo. Aceitaria a todos e a todos abraçaria como um irmão - mesmo sabendo que alguns irmãos não se abraçam e não se gostam. Não há, contudo, total reciprocidade e por isso lembramos e comparamos aos irmãos. É que sabemos que muitos não abraçariam de volta. E não aceitariam nem um convite para o gesto. O carnaval tem muitos inimigos, muitos deles motivados por credos pessoais. E credo! São estes os hipócritas. Os que denunciam a festa pagã mas dela se valem. Montam suas barraquinhas em campings, fazem retiros, rebanhões. Exortam os seus iguais de crença a darem o fora dessa pecaminosa festividade da carne. Ainda assim se valendo dela, é claro. Importa falar mal na frente e gozar em suas ancas por trás. Em tempo, quando dissermos ela é a festividade ou ele para quando carnaval. Mera formalidade de concordância de gênero para onde o gênero pouco conta. Na orgia festiva ele é ela e vice-versa ou na orgia que se quer genuína, ele e ela perde qualquer sentido. Só que nem de inimigos está cercado o carnaval. Temos também os que gostam, mas estes é estória já contada. De um modo ou outro, o que importa aqui ressaltar é que os amantes e os amantes hipócritas aproveitam os quatro dias para se debandarem da cidade. De qual cidade? Responderemos.
Não são todos que podem sair da cidade. Muitos acabam ficando mas estes acabam, no final das contas, parecendo poucos por saírem pouco de casa durante todo o carnaval. Este tipo de cidade que temos em mente são aquelas que distam não muita quilometragem de outras cidades litorâneas. Estas procuradas porque a praia veio se tornando o lugar que se identificou de uma vez por todas como o melhor para o carnaval. Sinônimo de carnaval é quase praia. São, então, cidades com praias fáceis de serem alcançadas porque nelas o carnaval está "logo ali". Por pouca quilometragem entre as cidades temporariamente abandonadas e as cidades litorâneas destinatárias queremos indicar menos de 150 quilômetros. Para essas últimas pode-se ir de carro, moto, ônibus, Santa Clara (empresa sem vergonha de transporte tendo outras similares na safadeza do serviço), de carro roubado, de bicicleta e periga mais um pouco de carroça ou no lombo de um jumento. Mas se chega. O que dizemos acima se aplica com total identificação com o extremo sul da Bahia e nem por menos já citávamos a Santa Clara que de santa nada tem. Ora, há uma cidade em especial no qual o carnaval produz esse forte esvaziamento de uma maneira célebre: ela é Teixeira de Freitas.
Tentando condensar sua breve existência em um único parágrafo, tentaremos responder o que é Teixeira de Freitas ou, a partir de agora, De Freitas. Inicialmente, De Freitas foi um vilarejo fundado sob o signo da destruição e pilhagem indiscriminada da majestosa e outrora virgem Mata Atlântica. Outras tantas matas não virgens surgiriam concomitantemente com o desaparecimento daquelas feitas de folhas e flores. São as matinhas que eram encontradas nos prostíbulos que se instalavam ao redor das serrarias. As serrarias eram como as empresas funerárias que aprontam os defuntos, neste caso, os paus das árvores mortas. Aí o segundo signo de sua origem: a prostituição. Pau e pau mata e buceta. Era o comércio conhecido da região. E isso gerou dinheiro. Foi graças a uma outra destruição que De Freitas viria a se firmar como cidade: ao arregaçar com a ferrovia Bahia-Minas, o governo militar brasileiro, eufemismo todos sabem de ditadura, acabou por destruir muitas cidades que viviam do comércio ao redor da linha de trem que partia de Araçuaí no Vale do Jequitinhonha em Minas e tinha como ponto final, Ponta de Areia em Caravelas na Bahia. Ponta de Areia Ponto Final e comecei a cantarolar a música de Milton mentalmente.......e, voltei. Enfim, destruindo a linha de trem e dando passagem à rodovia BR-101, o incompetente e mui desastrado e terrível governo ditatorial dos milicos a muitos lugares condenou ao desaparecimento, como Pampan em Minas, outros perderam a importância, como Caravelas, e a outros vilarejos miseráveis, inversamente, foram beneficiados com tal política e acabaram por ganhar importância. Um desses lugares foi portanto De Freitas. Sua origem perversa propiciada pela destruição engendrou não menos figuras mitológicas reais de politicagem e pistolagem que continuam existindo por muitas décadas. Assim como antigamente, assim hoje se mata com força. Há todo um catálogo de horror e violência disponível nesse lugar. É como uma grande Netflix real oferecendo qualquer tipo de espetáculo gratuito de morte e extermínio. Além da política, o comércio local se firmou. Na economia, outrora baseada no plantio de mamão, melancia e criação de gado, quase tudo isso sumiu. Os chifres, se sumiram da cabeça dos bois, foram parar, doutra forma, na cabeça de muitos gaiatos metidos a empresários. No geral, essa economia agrária toda desapareceu porque o eucalipto entrou com força arregaçando no rabo de todo mundo. Consumiu água, secou rios, expulsou gente do campo para formar miséria nas cidades. Acuada por si mesma, o que sobrou de importante, aparentemente forte e motor da cidade, é o seu comércio. Assim é o resumo da cidade: violência na e da política, corruptos, ladrões na administração executiva e legislativa, ladrões nas ruas, pobres e miseráveis, comerciários e comerciantes, pequenos empresários pêjotinhas que se acham grandes capitalistas. Um monstro que se auto consome. Eis aqui De Freitas. Relendo noto que talvez tenha feito um bom resumo histórico do local em um único parágrafo, apesar de tal parágrafo ter se alongado demais. Sinto-me pronto para prosseguir.
De Freitas, com sua casta comerciária, se esvazia no carnaval. É tradição. É a tradição. O destino é Alcobaça, Caravelas, Prado, Nova Viçosa, Mucuri e para quem tem um pouco mais de condição, Porto Seguro. Há um metido e outro que sempre dá um jeito de ir para o Rio de Janeiro ou Salvador. Para onde estes vão, por eles nós pouco nos importamos. Queremos contar as estórias daqueles que ficaram porque quem fica se depara com um cenário desolador. É o famoso "sair às ruas nu sem ser notado". Aqueles que tanto se preocupam com a futricagem da vida alheia hão de futricar em outras paragens. Quem fica para contar o que acontece em De Freitas? Os que estão doentes. Os que estão sem dinheiro. Os que estão com preguiça. Ficam os que gostam de carnaval mas por algum motivo citado anteriormente não podem sair, e ficam também os que não gostam de carnaval, mas nem por isso são crentes e nem mesmo gostam de crentes. Os testemunhas de Jeová nesse momento que escrevo não sei bem se ficam ou se vão pregar a palavra do testamento de porta em porta na beira da praia. Precisarei levantar mais informações a respeito disso. Pois, ficam estes. Mas mais do que isto: a cidade fica entregue às moscas. É o que se diria. Não meu caro e desocupado leitor! A cidade fica entregue aos urubus!
Desde que o aeroporto fora reinaugurado muitos moradores criam que os aviões dominariam os céus da cidade. Não foi bem o que aconteceu. Reféns do lobby das empresas de transporte terrestres, a língua coçou e mandou a coceira às mãos que manda escrever que uma dessas empresas filadaputa congênere afim da Santa Clara é a Águia Branca, o transporte aéreo não vingou. Os céus, como se sabe agora, não é dominado pelos pássaros de chumbo e aço, mas pelos urubus. Mas se os aviões não vingaram no espaço porque o que rasteja pela terra, os ônibus, assim não lhes permitiram, ao contrário, os urubus proliferaram e tomaram conta do alto porque aquilo que repousa sobre a terra que justamente os sustiveram em seu crescimento populacional: o lixo exposto, a carniça ofertada, o esgoto aberto e outros elementos que serão ditos nas estórias que sucedem a essa introdução. Pensem o que poderia acontecer em um lugar desses, com tantos urubus livres para o banquete que se forma em quatro dias de abandono maior do que o abandono habitual ao qual essa cidade está submetida. Pense no que esses urubus poderiam fazer. De Freitas, no carnaval, fica só e abandonada apesar de alguns moradores, mas ora, mesmo no carnaval, paradoxo bonito da festa, pode-se estar sozinho em meio a uma multidão, cercado de olhares e não ser olhado por nenhuma mulher, nem mesmo uma ruiva de suposta baixa auto-estima. Se você, meu querido leitor desocupado, não consegue pensar no que pode acontecer, as estórias estão aqui para ajudar a fazer você pensar. Para que você tenha medo. Porque, afinal, quem em De Freitas não vive com medo, esse há de morrer provavelmente cedo.
Tentando condensar sua breve existência em um único parágrafo, tentaremos responder o que é Teixeira de Freitas ou, a partir de agora, De Freitas. Inicialmente, De Freitas foi um vilarejo fundado sob o signo da destruição e pilhagem indiscriminada da majestosa e outrora virgem Mata Atlântica. Outras tantas matas não virgens surgiriam concomitantemente com o desaparecimento daquelas feitas de folhas e flores. São as matinhas que eram encontradas nos prostíbulos que se instalavam ao redor das serrarias. As serrarias eram como as empresas funerárias que aprontam os defuntos, neste caso, os paus das árvores mortas. Aí o segundo signo de sua origem: a prostituição. Pau e pau mata e buceta. Era o comércio conhecido da região. E isso gerou dinheiro. Foi graças a uma outra destruição que De Freitas viria a se firmar como cidade: ao arregaçar com a ferrovia Bahia-Minas, o governo militar brasileiro, eufemismo todos sabem de ditadura, acabou por destruir muitas cidades que viviam do comércio ao redor da linha de trem que partia de Araçuaí no Vale do Jequitinhonha em Minas e tinha como ponto final, Ponta de Areia em Caravelas na Bahia. Ponta de Areia Ponto Final e comecei a cantarolar a música de Milton mentalmente.......e, voltei. Enfim, destruindo a linha de trem e dando passagem à rodovia BR-101, o incompetente e mui desastrado e terrível governo ditatorial dos milicos a muitos lugares condenou ao desaparecimento, como Pampan em Minas, outros perderam a importância, como Caravelas, e a outros vilarejos miseráveis, inversamente, foram beneficiados com tal política e acabaram por ganhar importância. Um desses lugares foi portanto De Freitas. Sua origem perversa propiciada pela destruição engendrou não menos figuras mitológicas reais de politicagem e pistolagem que continuam existindo por muitas décadas. Assim como antigamente, assim hoje se mata com força. Há todo um catálogo de horror e violência disponível nesse lugar. É como uma grande Netflix real oferecendo qualquer tipo de espetáculo gratuito de morte e extermínio. Além da política, o comércio local se firmou. Na economia, outrora baseada no plantio de mamão, melancia e criação de gado, quase tudo isso sumiu. Os chifres, se sumiram da cabeça dos bois, foram parar, doutra forma, na cabeça de muitos gaiatos metidos a empresários. No geral, essa economia agrária toda desapareceu porque o eucalipto entrou com força arregaçando no rabo de todo mundo. Consumiu água, secou rios, expulsou gente do campo para formar miséria nas cidades. Acuada por si mesma, o que sobrou de importante, aparentemente forte e motor da cidade, é o seu comércio. Assim é o resumo da cidade: violência na e da política, corruptos, ladrões na administração executiva e legislativa, ladrões nas ruas, pobres e miseráveis, comerciários e comerciantes, pequenos empresários pêjotinhas que se acham grandes capitalistas. Um monstro que se auto consome. Eis aqui De Freitas. Relendo noto que talvez tenha feito um bom resumo histórico do local em um único parágrafo, apesar de tal parágrafo ter se alongado demais. Sinto-me pronto para prosseguir.
De Freitas, com sua casta comerciária, se esvazia no carnaval. É tradição. É a tradição. O destino é Alcobaça, Caravelas, Prado, Nova Viçosa, Mucuri e para quem tem um pouco mais de condição, Porto Seguro. Há um metido e outro que sempre dá um jeito de ir para o Rio de Janeiro ou Salvador. Para onde estes vão, por eles nós pouco nos importamos. Queremos contar as estórias daqueles que ficaram porque quem fica se depara com um cenário desolador. É o famoso "sair às ruas nu sem ser notado". Aqueles que tanto se preocupam com a futricagem da vida alheia hão de futricar em outras paragens. Quem fica para contar o que acontece em De Freitas? Os que estão doentes. Os que estão sem dinheiro. Os que estão com preguiça. Ficam os que gostam de carnaval mas por algum motivo citado anteriormente não podem sair, e ficam também os que não gostam de carnaval, mas nem por isso são crentes e nem mesmo gostam de crentes. Os testemunhas de Jeová nesse momento que escrevo não sei bem se ficam ou se vão pregar a palavra do testamento de porta em porta na beira da praia. Precisarei levantar mais informações a respeito disso. Pois, ficam estes. Mas mais do que isto: a cidade fica entregue às moscas. É o que se diria. Não meu caro e desocupado leitor! A cidade fica entregue aos urubus!
Desde que o aeroporto fora reinaugurado muitos moradores criam que os aviões dominariam os céus da cidade. Não foi bem o que aconteceu. Reféns do lobby das empresas de transporte terrestres, a língua coçou e mandou a coceira às mãos que manda escrever que uma dessas empresas filadaputa congênere afim da Santa Clara é a Águia Branca, o transporte aéreo não vingou. Os céus, como se sabe agora, não é dominado pelos pássaros de chumbo e aço, mas pelos urubus. Mas se os aviões não vingaram no espaço porque o que rasteja pela terra, os ônibus, assim não lhes permitiram, ao contrário, os urubus proliferaram e tomaram conta do alto porque aquilo que repousa sobre a terra que justamente os sustiveram em seu crescimento populacional: o lixo exposto, a carniça ofertada, o esgoto aberto e outros elementos que serão ditos nas estórias que sucedem a essa introdução. Pensem o que poderia acontecer em um lugar desses, com tantos urubus livres para o banquete que se forma em quatro dias de abandono maior do que o abandono habitual ao qual essa cidade está submetida. Pense no que esses urubus poderiam fazer. De Freitas, no carnaval, fica só e abandonada apesar de alguns moradores, mas ora, mesmo no carnaval, paradoxo bonito da festa, pode-se estar sozinho em meio a uma multidão, cercado de olhares e não ser olhado por nenhuma mulher, nem mesmo uma ruiva de suposta baixa auto-estima. Se você, meu querido leitor desocupado, não consegue pensar no que pode acontecer, as estórias estão aqui para ajudar a fazer você pensar. Para que você tenha medo. Porque, afinal, quem em De Freitas não vive com medo, esse há de morrer provavelmente cedo.
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