Os urubus e os dias (de carnaval)
Este é um livro online e uma obra em progresso. Para que todos os eventos aqui narrados sejam verossímeis é preciso que o leitor os encare de boa fé e acredite no que possa não ter acontecido como tendo sido realmente passado.
quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018
VII - Parque de urubus
A picape branca tinha sido tomada emprestada por Silva com o seu amigo Julinho às sete e meia da tarde na véspera da quarta-feira de cinzas. Uma hora antes Silva havia contactado Tilu e explicado-lhe o plano. Tilu disse que os burros não conseguem marchar muito bem de madrugada e, além do mais, pelo que Silva havia proposto, o certo seria usar um carro para evitar contratempo e riscos. Se a polícia pega? "Bobeira!" disse Silva ao telefone, "os ômi tão na praia cuidando do cu dos cachaceiros...hé-hé". Mas Tilu pensava certo. Para o serviço, seria preciso um carro e mais um homem. Três no total. Tilu estava com muito cansaço. Silva, sem conseguir conversar com Adival - que tinha saído do Regional às cinco e de lá foi se arrumar para o culto às 19:00 horas - decidiu que passaria pessoalmente no culto e enquanto isso iria em busca do terceiro homem. É que, na correria, Adival deixara o telefone descarregar. Era este, no mais, o arquiteto principal de todo aquele plano que seria executado naquela madrugada. Sem possibilidade alguma de qualquer outra alteração. Era preciso que fosse assim.
Silva passou então às 19:30 no culto. Parou na porta da igreja, desceu e chamou Adival que interrompeu o culto por alguns minutos.
- Desculpa, pastor, não consegui te ligar, consegui o Mirim. Ele vai nos ajudar, tá ali no carro, só vim pra confirmar o horário.
- O celular tinha descarregado, não posso falar muito agora, vou ver se adianto as coisas aqui para não ter atraso nenhum, ok? Pode ir lá pra sua casa e aguardar minha ligação!
- Certo, pastor! Paz de Cristo!
- Amém, irmão! Fé que esse prefeitinho safado vai ter o que merece!
Adival deu cabo na cerimônia alguns minutos depois. Terminou com um pedido de oração para o pastor titular da igreja que se encontrava internado no Regional. Ao fim, um ou dois fiéis quiseram-no intercalar sobre mais informações, sobre ele não ter falado nada de aves de rapinas no Novo Testamento, respondeu rapidamente que seria o tema do próximo culto, e assim ele saiu desenrolando-se feito uma cobra na mata fechada e foi rumo à sua casa, dois quarteirões depois. Apertava o passo. Chegou em dez minutos. Tirou o paletó. Tomou um banho, pegou o celular que tinha deixado carregando enquanto comia alguma coisa e foi até a varanda, onde guardava uma caixa enorme cheia de sacolinhas plásticas de supermercado, pegou muitas, colocou dentro de uma outra maior. Assim, ligou para Silva e dissesse que pudesse vir. Quando chegasse, desse um toque pelo celular. O bairro estava escuro. Pouca gente. Apesar de ser um bairro pobre no qual poucas pessoas viajam para o carnaval, era quase meia-noite e todos dormiam. Silva chegou exatamente às 23:40.
Adival entre-abriu a porta, fez um gesto e Silva e Mirim adentraram em sua pequena sala. Uma pequena tv de led, 14 polegadas, um aparelho de dvd e vários discos de palestras religiosas que se posicionavam contra o aborto, a homossexualidade, a arte, a música. Um catálogo de proibições. Depois que os dois se sentaram, Adival perguntou a Silva:
- Trouxe as lanternas? E as sacolas?
- Sim, pastor, passei uma fita isolante na placa do carro..
- Fita isolante? Com medo das câmeras?
- É, vi algumas instaladas na praça e...
- Não funcionam! Posso te garantir! Câmera só fica desligada nessa cidade. Um fiel lá da igreja que trabalha na prefeitura disse que essas câmeras só são fachadas. Quanto à PM, não se preocupe. Confirmei com um amigo que trabalha como soldado, está na praia, sem que ele percebesse o interesse de minha dúvida, é claro, mas a cidade hoje, de terça pra quarta tá entregue às moscas, aos urubus, ao Deus dará. E se Deus quiser, Deus vai permitir nossa vingança!
- Amém!
- Ô Mirim, disse Adival olhando para o sujeito convocado por Silva, você já está sabendo do nosso projeto? É coisa simples, viu...e precisamos do seu compromisso em guardar o segredo dessa ação de hoje à noite.
- Deus me livre de trair um homem de Deus! O Silva me explicou, só ainda na dúvida qual o motivo de fazer isso, apesar de concordar, lá na rua de casa, tá feio na carniça.
- Pois saiba que passaremos primeiro na sua rua então! É aqui perto né? O motivo, bem, é uma lição. Olha o que essas pragas fizeram com o pastor lá da igreja! Eu não falei no culto, mas a situação não é boa. Ele tem mais de 60 anos, tem um pouco de osteoporose, a situação não está boa mesma!
- Deus proteja nosso pastor! Gosto dele, replicou Silva.
- Então, Mirim, basicamente é isso, o prefeito, aquele puto...ele vai ver o que vai encontrar o que todo cidadão dessa cidade vem encontrando quando costuma sair de casa...
Mirim havia soltado um leve sorriso. Adival perguntou o porquê:
- Perdão, pastor, confesso que não estou acostumado a ver um homem de Deus xingando...
- Nosso Deus, nosso bom Deus, só ler a Bíblia, Mirim, gosta de uma vingança se ela for justa. Vai ter vingança sim. Bem, chega de falar. Vamos começar o serviço. Até duas da manhã a gente acaba isso. Se o ambiente estiver mais tranquilo, a gente faz um extra. Ok?
Todos balançaram a cabeça concordando. Adival saiu por último, fechou a casa e entraram na picape. Era um carro já tão surrado que parece com o tempo de uso, sua cabine acabou se alargando cabendo três pessoas o normal sendo duas. Jogaram todo o material que precisavam na carroceria. Não chovia. A noite ia ser boa. Se Deus quiser, e Deus queria.
Quando saíram de casa, o relógio já marcava os primeiros minutos da quarta-feira de cinzas. A rua de Mirim fora a primeira, como prometeu o pastor. Só naquele endereço, e nem era rua comprida, os três conseguiram encher até certa altura a carroceria da picape. Como estavam começando e precisavam ver a situação da cidade, se realmente estava tudo calmo, decidiram não deixar muita coisa à vista. Foram pela avenida Getúlio Vargas até a altura da CDC e ali entraram pela rua do shopping. Nem mesmo um cachorro ou um gato, animal noturno, estavam perambulando. Seguiram então e saíram pelo fundo da rodoviária velha. Viram dois rapazes, pareciam andarilhos, andando por lá. O carro seguiu lentamente. O único receio de encontrar algum movimento seria no posto de combustível que também estava fechado àquela hora. Chegaram então na prefeitura. Tudo ainda em silêncio. Silva estacionou o carro perto da entrada.
- Aqui está bom! confirmou Adival.
Por segurança, Silva desceu do carro e ficou observando as redondezas. Adival mais Mirim rapidamente começaram o serviço: de sacolinhas plásticas na mão utilizadas como luvas, começaram a retirar da carroceria todo o lixo que eles haviam recolhido. Metade era só da rua de Mirim. Um fedor horrível. Conseguiu produzir um efeito aquelas sacolas na entrada do prédio municipal.
- Agora vamo pra segunda viagem, disse Silva entrando no carro. Para onde, pastor?
- Agora, em homenagem ao pastor Josivânio, vamos lá na rua dele.
O carro voltou pela avenida Marechal Castelo Branco. Um carro passou por eles na altura do supermercado Faé. Aparentemente só um motorista. Talvez alguém perdido. Alguém indo em direção à rua Mauá. Os puteirinhos estavam fechados. De puto mesmo, apenas o espírito de Adival. Em menos de trinta minutos, eles foram até o endereço do pastor Josivânio e recolheram toda a lixaiada. Ainda podia-se ver os detritos espalhados que haviam feito o pastor Josivânio, que correra atrás dos urubus para espantá-los, cair e se estelar no chão. "É por você, pastor" pensou Adival enquanto colocava as sacolas. Livres para agir, o trio viu que não precisaria esconder o lixo até o bordo da carroceira. Essa viagem foi cheia. Conseguiram pegar o lixo de duas ruas e todo ele foi adicionado à porta da prefeitura. Assim foram e fizeram mais uma viagem ao Teixeirinha limpando duas ruas, foram ao Bela Vista, uma rua e mais uma do Centro para acabar a tarefa. Durante toda essa coleta ilegal, não viram mais uma alma penada se quer. E se vissem, o pastor estaria ali para arrebanhá-la! Ao final, só não se assustaram mais com o entulho produzido porque a iluminação àquela hora, duas e quinze da madrugada, era precária. O monte de lixo alcançava de quatro a cinco metros de altura ocupando toda a calçada.
- Os urubus vão se divertir amanhã! Praticamente um parque de diversão essa prefeitura virou! Disse triunfante o pastor Adival e todos eles sorriram. Acho que terminamos por aqui.
Silva deixou Mirim em sua casa. O pastor apertou a mão dele em agradecimento ao sair do carro. Disse que Deus o abençoaria por essa ajuda. Mirim só por isso se sentiu recompensado. Silva depois deixou Adival em casa e também pelo pastor foi abençoado, então, voltou sozinho. Devolveria o carro, sem as placas adulteradas, logo cedo para o seu amigo. Adival, ao entrar em sua morada, cansado, fedendo, estava estranhamente e plenamente feliz. Tomou um banho. Antes de deitar, se ajoelhou na beira da cama e disse:
- Obrigado, meu bom Deus por ter nos coberto de proteção essa noite! Sei que fizemos vossa vontade! Demos aos carnicentos que nos destrói a vida a carniça que eles merecem!
Como se estivesse ainda no altar da igreja, Adival perguntou e ele mesmo respondeu:
- Amém?!
- Amém!
Silva passou então às 19:30 no culto. Parou na porta da igreja, desceu e chamou Adival que interrompeu o culto por alguns minutos.
- Desculpa, pastor, não consegui te ligar, consegui o Mirim. Ele vai nos ajudar, tá ali no carro, só vim pra confirmar o horário.
- O celular tinha descarregado, não posso falar muito agora, vou ver se adianto as coisas aqui para não ter atraso nenhum, ok? Pode ir lá pra sua casa e aguardar minha ligação!
- Certo, pastor! Paz de Cristo!
- Amém, irmão! Fé que esse prefeitinho safado vai ter o que merece!
Adival deu cabo na cerimônia alguns minutos depois. Terminou com um pedido de oração para o pastor titular da igreja que se encontrava internado no Regional. Ao fim, um ou dois fiéis quiseram-no intercalar sobre mais informações, sobre ele não ter falado nada de aves de rapinas no Novo Testamento, respondeu rapidamente que seria o tema do próximo culto, e assim ele saiu desenrolando-se feito uma cobra na mata fechada e foi rumo à sua casa, dois quarteirões depois. Apertava o passo. Chegou em dez minutos. Tirou o paletó. Tomou um banho, pegou o celular que tinha deixado carregando enquanto comia alguma coisa e foi até a varanda, onde guardava uma caixa enorme cheia de sacolinhas plásticas de supermercado, pegou muitas, colocou dentro de uma outra maior. Assim, ligou para Silva e dissesse que pudesse vir. Quando chegasse, desse um toque pelo celular. O bairro estava escuro. Pouca gente. Apesar de ser um bairro pobre no qual poucas pessoas viajam para o carnaval, era quase meia-noite e todos dormiam. Silva chegou exatamente às 23:40.
Adival entre-abriu a porta, fez um gesto e Silva e Mirim adentraram em sua pequena sala. Uma pequena tv de led, 14 polegadas, um aparelho de dvd e vários discos de palestras religiosas que se posicionavam contra o aborto, a homossexualidade, a arte, a música. Um catálogo de proibições. Depois que os dois se sentaram, Adival perguntou a Silva:
- Trouxe as lanternas? E as sacolas?
- Sim, pastor, passei uma fita isolante na placa do carro..
- Fita isolante? Com medo das câmeras?
- É, vi algumas instaladas na praça e...
- Não funcionam! Posso te garantir! Câmera só fica desligada nessa cidade. Um fiel lá da igreja que trabalha na prefeitura disse que essas câmeras só são fachadas. Quanto à PM, não se preocupe. Confirmei com um amigo que trabalha como soldado, está na praia, sem que ele percebesse o interesse de minha dúvida, é claro, mas a cidade hoje, de terça pra quarta tá entregue às moscas, aos urubus, ao Deus dará. E se Deus quiser, Deus vai permitir nossa vingança!
- Amém!
- Ô Mirim, disse Adival olhando para o sujeito convocado por Silva, você já está sabendo do nosso projeto? É coisa simples, viu...e precisamos do seu compromisso em guardar o segredo dessa ação de hoje à noite.
- Deus me livre de trair um homem de Deus! O Silva me explicou, só ainda na dúvida qual o motivo de fazer isso, apesar de concordar, lá na rua de casa, tá feio na carniça.
- Pois saiba que passaremos primeiro na sua rua então! É aqui perto né? O motivo, bem, é uma lição. Olha o que essas pragas fizeram com o pastor lá da igreja! Eu não falei no culto, mas a situação não é boa. Ele tem mais de 60 anos, tem um pouco de osteoporose, a situação não está boa mesma!
- Deus proteja nosso pastor! Gosto dele, replicou Silva.
- Então, Mirim, basicamente é isso, o prefeito, aquele puto...ele vai ver o que vai encontrar o que todo cidadão dessa cidade vem encontrando quando costuma sair de casa...
Mirim havia soltado um leve sorriso. Adival perguntou o porquê:
- Perdão, pastor, confesso que não estou acostumado a ver um homem de Deus xingando...
- Nosso Deus, nosso bom Deus, só ler a Bíblia, Mirim, gosta de uma vingança se ela for justa. Vai ter vingança sim. Bem, chega de falar. Vamos começar o serviço. Até duas da manhã a gente acaba isso. Se o ambiente estiver mais tranquilo, a gente faz um extra. Ok?
Todos balançaram a cabeça concordando. Adival saiu por último, fechou a casa e entraram na picape. Era um carro já tão surrado que parece com o tempo de uso, sua cabine acabou se alargando cabendo três pessoas o normal sendo duas. Jogaram todo o material que precisavam na carroceria. Não chovia. A noite ia ser boa. Se Deus quiser, e Deus queria.
Quando saíram de casa, o relógio já marcava os primeiros minutos da quarta-feira de cinzas. A rua de Mirim fora a primeira, como prometeu o pastor. Só naquele endereço, e nem era rua comprida, os três conseguiram encher até certa altura a carroceria da picape. Como estavam começando e precisavam ver a situação da cidade, se realmente estava tudo calmo, decidiram não deixar muita coisa à vista. Foram pela avenida Getúlio Vargas até a altura da CDC e ali entraram pela rua do shopping. Nem mesmo um cachorro ou um gato, animal noturno, estavam perambulando. Seguiram então e saíram pelo fundo da rodoviária velha. Viram dois rapazes, pareciam andarilhos, andando por lá. O carro seguiu lentamente. O único receio de encontrar algum movimento seria no posto de combustível que também estava fechado àquela hora. Chegaram então na prefeitura. Tudo ainda em silêncio. Silva estacionou o carro perto da entrada.
- Aqui está bom! confirmou Adival.
Por segurança, Silva desceu do carro e ficou observando as redondezas. Adival mais Mirim rapidamente começaram o serviço: de sacolinhas plásticas na mão utilizadas como luvas, começaram a retirar da carroceria todo o lixo que eles haviam recolhido. Metade era só da rua de Mirim. Um fedor horrível. Conseguiu produzir um efeito aquelas sacolas na entrada do prédio municipal.
- Agora vamo pra segunda viagem, disse Silva entrando no carro. Para onde, pastor?
- Agora, em homenagem ao pastor Josivânio, vamos lá na rua dele.
O carro voltou pela avenida Marechal Castelo Branco. Um carro passou por eles na altura do supermercado Faé. Aparentemente só um motorista. Talvez alguém perdido. Alguém indo em direção à rua Mauá. Os puteirinhos estavam fechados. De puto mesmo, apenas o espírito de Adival. Em menos de trinta minutos, eles foram até o endereço do pastor Josivânio e recolheram toda a lixaiada. Ainda podia-se ver os detritos espalhados que haviam feito o pastor Josivânio, que correra atrás dos urubus para espantá-los, cair e se estelar no chão. "É por você, pastor" pensou Adival enquanto colocava as sacolas. Livres para agir, o trio viu que não precisaria esconder o lixo até o bordo da carroceira. Essa viagem foi cheia. Conseguiram pegar o lixo de duas ruas e todo ele foi adicionado à porta da prefeitura. Assim foram e fizeram mais uma viagem ao Teixeirinha limpando duas ruas, foram ao Bela Vista, uma rua e mais uma do Centro para acabar a tarefa. Durante toda essa coleta ilegal, não viram mais uma alma penada se quer. E se vissem, o pastor estaria ali para arrebanhá-la! Ao final, só não se assustaram mais com o entulho produzido porque a iluminação àquela hora, duas e quinze da madrugada, era precária. O monte de lixo alcançava de quatro a cinco metros de altura ocupando toda a calçada.
- Os urubus vão se divertir amanhã! Praticamente um parque de diversão essa prefeitura virou! Disse triunfante o pastor Adival e todos eles sorriram. Acho que terminamos por aqui.
Silva deixou Mirim em sua casa. O pastor apertou a mão dele em agradecimento ao sair do carro. Disse que Deus o abençoaria por essa ajuda. Mirim só por isso se sentiu recompensado. Silva depois deixou Adival em casa e também pelo pastor foi abençoado, então, voltou sozinho. Devolveria o carro, sem as placas adulteradas, logo cedo para o seu amigo. Adival, ao entrar em sua morada, cansado, fedendo, estava estranhamente e plenamente feliz. Tomou um banho. Antes de deitar, se ajoelhou na beira da cama e disse:
- Obrigado, meu bom Deus por ter nos coberto de proteção essa noite! Sei que fizemos vossa vontade! Demos aos carnicentos que nos destrói a vida a carniça que eles merecem!
Como se estivesse ainda no altar da igreja, Adival perguntou e ele mesmo respondeu:
- Amém?!
- Amém!
terça-feira, 13 de fevereiro de 2018
VI - A palavra da Bíblia e as aves de rapina
Transcrição da pregação do pastor Adival que substituiu o pastor Josivânio na igreja A... no bairro V...V... em De Freitas na noite do dia treze de fevereiro de carnaval do ano dois mil e dezoito. Os trechos em parênteses são os registros das interrupções, perguntas, inconvenientes, pausas e outros durante a pregação. A transcrição tentou suprimir os erros menores de português, mas manteve os vícios de linguagem, repetições etc para tentar ser o mais original possível.
Irmãos, irmãs, amém! amém? (coro responde: amém!). Fico feliz de ver aqui vocês presentes, firmes na rocha, nesses dias que celebram tudo menos a Deus. Conto quantos? Uns vinte? O casal ali que veio nos visitar, da congregação de Juracitaba, Deus abençoe esse casal, Amém! (coro responde: amém!). O motivo de estar hoje substituindo o pastor Josivânio, não sei se vocês já sabem, alguém? ninguém? aconteceu um imprevisto. Parece que o pior já passou. O pastor está internado e medicado no Regional - vamos hoje a orar a Deus para que ele consiga sair sem consequências de lá, amém?! (coro responde: amém!). Fui avisado agora a tarde pela sua esposa, mulher tenente (sic) a Deus e ao esposo, cuidadora, do lar, me ligou à tarde perguntando se poderia vir substituí-lo. Um pedido desses é uma ordem! Claro que vim e aqui estou. Com a graça de Deus! Amém?! (coro responde: Amém!). Vou explicar o que aconteceu porque o que quero falar hoje tem a ver com o ocorrido. O tema será sobre o que a Bíblia nos diz sobre as aves de rapina já que explicitamente vocês não vão encontrar não a palavra urubu nos textos sagrados...
(pausa de alguns segundo do pastor, pode-se ouvir um burburinho, aparentemente alguns fazem cara de espanto, ele retoma)
...sim, os urubus. O pastor foi vítima da ação deles...
(um som mais alto de conversa, ouve-se uma voz masculina "pastor, está tudo bem? como assim urubu? o que foi que aconteceu?" continua o chiado, agora uma voz feminina "conta pastor...está tudo bem? ele foi atacado??" pastor retoma)
...meus irmãos, minhas irmãs, calma, está tudo bem agora, o pastor já foi medicado, peço a paciência de vocês para contar, acalmem-se, estamos entregues a Deus, amém?! (coro em resposta: amém!), pois bem, o pastor foi cumprir seu dever de bom esposo, acordou às sete da manhã, assim contou para mim sua esposa, depois do café ele foi cuidar do lixo, ensacou tudo e foi até a rua. Tomou um susto muito grande quando viu uns quinze urubus em frente de sua casa, os urubus, essas aves, haviam esparramado o lixo dos outros vizinhos em um grande trecho da rua, parece que o fedor estava muito forte e o pastor sentiu o primeiro baque aí, ele voltou alguns passos, deixou o lixo na cesta e voltou pra dentro de sua casa, jogou uma água no rosto, a esposa me disse que ele se sentou, reclamou do fedor bastante forte na rua da carniça, ela me disse também que ele estava impaciente e ficou um pouco alterado, imagina vocês irmãos e irmãs nosso pastor tão tranquilo e calmo Josivânio ficando irritado? O fedor era muito só podia ser. Mas o que pior de aconteceu foi depois. Uns quinze minutos depois o pastor saiu de novo. Ficou irritado sabe por que meus irmãos e irmãs? (pausa, parece com o som do pregador bebendo água), os urubus, essas aves, não atacaram o lixo do pastor? Em menos de vinte minutos tudo que ele havia embrulhado estava lá estraçalhado na rua, o pastor vendo aquilo, olha como não ficar nervoso, ele pegou algumas pedras, vejam vocês que mesmo um homem tenente (sic) a Deus como não está em total segurança dos riscos desse mundo, ele pegou umas pedras e começou a atirar nos urubus, essas aves, algumas voaram, ele saiu correndo atrás de uma e irmãos, irmãs, ele acertou uma e acabou matando um urubu...
(silêncio..uma pausa de alguns segundos, um burburinho, escuta-se uma voz masculina que parece estava sentada ao fundo da igreja "eu teria feito o mesmo, perdão a Deus, mas teria feito sim, tem dias que o caminhão do lixo não passa, nesse carnaval, povo pra praia, bebida, tem, mas esquece do povo de Deus que fica aqui orando, trabalhando, desrespeito, Deus me perdoe, mas eu teria feito o mesmo", o discurso faz aumentar o barulho...o pastor intervem)
...sim, acalmem-se meus filhos e filhas de Deus, sei, da zanga, sei que vocês devem estar impressionados, chateados, parece forte mesmo, assim, dizer "o pastor matou um urubu" mas olha, ele ainda sofreu por isso porque na corrida atrás de um urubu teve um leve mal estar, acabou tropeçando, ficou desmaiado, foi acordado pela esposa, tudo isso ela me contou, e relatou sentir algumas dores no pescoço, mas ela correu e ligou pro Samu, amém?! (coro responde: amém!), sim, Deus é bom porque o Samu não apareceu não, parece que errou o bairro e nosso Deus abençoou o vizinho que voltou antes da praia, parece que se arrependeu, viu muita coisa errada na praia, Deus tocou o coração desse vizinho, ela pediu por socorro e eles dois levaram o pastor para o Regional. Isso foi tudo hoje de manhã, mas ainda não temos diagnóstico...precisamos ter fé que não seja nada grave, amém?! (novamente o coro: amém!).
(segue-se uma pausa, ouvem-se passos, parece que o pastor anda de um lado para o outro, retoma a pregação)
Irmãos, irmãs, fiquei sabendo disso tudo hoje de manhã e tirei a tarde para pensar sobre o que iria apresentar como tema para nossas reflexões de hoje, porque, vocês, devem estar se perguntando sobre o fato do pastor ter matado um animal? Estão? Antes de prosseguir, me respondam, certo? (um silêncio, ouve-se timidamente um uma voz feminina "olhar, pastor, sim, me chocou um pouco", pastor retoma)
...sim minha irmã, é essa a pergunta: pode um homem matar um urubu, principalmente se esse homem é um homem digno que honra a Deus? essa é uma pergunta, mas a gente precisa saber primeiro o que a Bíblia fala sobre urubus, lembram do início que falei? a Bíblia não cita urubu, ela fala sobre aves de rapina. Tudo foi muito corrido hoje, minha ideia, para que fosse possível ser apresentada, fui até a internet, no Bíblia online, sim, irmãos e irmãs, não é pecado usar a Bíblia na internet, é até auxiliadora para pesquisar com mais precisão a palavra de Deus, mas depois confirmei tudo o que estava na internet na nossa Bíblia impressa, sim, joguei o termo e pesquisei...aqui alguns resultados e passagens. Vou apresentar então a vocês para a gente tentar responder a pergunta: pode o homem inocente matar sem culpa um urubu? essas aves de rapina? antes de prosseguir um amém para nosso pastor que está internado, amém?! amém?! (coro responde mais forte: amém! amém, pastor!).
(o trecho acima poderia ser considerado uma introdução para a pregação dado que, há um intervalo de quase dois minutos, ouvem-se passos, aparentemente alguém sobe escadas, chega mais pessoas na igreja, e então o pastor retoma, ou começa)
Irmãos, irmãs, o urubu mesmo não se fala dele na Bíblia. O urubu só tem na América e vocês se lembram que na época do antigo ou novo testamento essa região não era conhecida dos profetas, vamos deixar de lado o motivo disso, pesquisei não só na Bíblia, mas também em alguns sites de pesquisa, muitas confusões e muitos termos ein, urubus, abutres, corvos, é tudo a mesma coisa? não, a biologia, a ciência dos homens, classifica e especifica tudo de uma forma, mas vamos tomar o abutre, que tem no Livro Sagrado, como sinônimo do comportamento, da ave que rapina, que come e cerca a carne em decomposição, antes ainda, todas essas são aves, são pássaros, pois o que o Gênesis o livro da criação fala dos pássaros? Os pássaros foram criados no quinto dia, as aves são colocadas sob o firmamento do céu e sobre a Terra. Em Gêneses 1, 26 Deus depois de ter criado o homem no sexto dia, manda que sua criatura domine as aves do céu e os outros animais. Aqui, irmãos e irmãs, já podemos questionar como é possível essas aves, os urubus, não respeitarem a palavra de Deus ao desrespeitarem os homens? Ou por que será que o homem não consegue dominar essas aves? Muita coisa mudou de lá para cá e a gente não pode saber se antes da chegada da palavra de Deus nesse continente os nativos dominavam as aves? Não sabemos, não há como saber! Os urubus, prestem atenção, muita coisa mudou do Gêneses, da criação para cá, ah sim irmãos e irmãs vocês sabem como as coisas tem mudado, mas sigamos firmes na rocha, amém?! (coro responde: amém!).
(o pastor é interrompido, parece que alguém o chama até a porta, pode-se ouvir muito baixo o que parece uma conversa, duração de dois minutos, ele volta à pregação)
Irmãos, irmãs, ainda no Gênesis no capítulo quinze versículo onze Abraão enxota, vocês sabem o que é enxotar irmãos, irmãs? Meter caneladas e corridas atrás dos pássaros para que eles avooem para bem longe, as aves que cerceavam os cadáveres . Essa passagem, imaginem vocês, Abraão não saiu para colocar o lixo na rua, ele fazia uma oferenda, mas vejam aí que já naquele tempo, Abraão afugentava os carnicentos igual o nosso querido pastor fez hoje com os urubus. Abraãããããoooo (parece que o pastor ficou empolgado e segurou a sílaba final por alguns segundos) ele sim, o grande patriarca, botou pra correr os carnicentos. Agora há uma passagem no Deuteronômio, Moisés interditando que se coma a carne de determinadas aves, o abutre é uma delas, mas não precisamos entrar nos detalhes porque não é o caso, graças a Deus, apesar da miséria e da fome nessa cidade, ninguém ainda saiu à caça de urubus para...(silêncio, interrupção, o pastor parece notar um ar de constrangimento, feições de estranhamento, retoma), sim, sei que vocês podem achar isso, eu diria, nojento não é? mas bem, quem conhece o homem na fomem? (sic)
Então, o homem que não pode se alimentar dessa ave porque sua carne, sua carne, se alimenta da carne dos mortos, pode então o homem matá-la? Pode irmãos e irmãs? Alguém? Alguém? É uma pergunta...pode responder quem quiser, só levantar a mão...(alguém faz uma pergunta, voz feminina "pastor, mas e o não matarás? é certo?, pastor retoma)
Boa pergunta, irmã, lembre-se do Gêneses falando pro homem dominar as aves, lembremos do Deuteronômio dizendo que algumas carnes podem outras não, mas lembrei não é? É carne para sustento, o pastor não matou para o alimento, mas por causa de um ultraje sofrido...pode o urubu ultrajar o homem? Não está na Escrituras, verdade, que não matarás a não ser o ser humano, o ser que tem alma, o urubu, o urubu é um predador, ele anda em bando...você já viu, irmã? Um urubu alguém criar um como se cria um cão? Alguém já deu nome a um urubu chamando de Totó ou Pupi? O urubu briga entre eles apesar dos bandos, eles não dividem...o urubu, vou precisar de mais tempo, vocês sabem? Aquela hora que me chamaram na porta? Precisarei sair, uma urgência, nada relacionado ao pastor, mas é uma ajuda que também tem a ver com o ultraje, eu explicarei...vou encerrar e preciso indicar para vocês, olha, o pastor não errou porque Deus manda combater o diabo não é? Irmãos e irmãs, o urubu é uma legião, o urubu é o Demônio, precisamos, precisamos enfrentar o Satanás não é irmãos e irmãs? NÃO É? (parece que o pastor começa a gritar) digam, sim? sim? (Ouvem-se várias vozes ao mesmo tempo gritando "sim! sim!", um barulho infernal, latidos de um cachorro ao fundo que pode ter sido atiçado pelos fiéis dentro da igreja)
A quaresma, esse período que representa a tentação de Satanás a Cristo no deserto, olha, olha, nossa igreja, vocês sabem, a gente protestante, a quaresma, o jejum, nosso é o de todos os dias, não precisamos fechar a boca para os alimentos perniciosos, as bebidas, não bebemos, apesar de que, nós, povo de Deus, a gente vem comendo muita carne processada, vocês sabem, essas redes de fast-food no shopping novo não é isso? Eu andei por lá semana passada, vi alguns dos nossos irmãos e irmãs por lá, enfim, a quaresma, mas lembremos da quaresma o período que Satanás fustigou Jesus, começa na quarta de cinzas certo? Mas aqui começou antes, começou, começou com esse tanto de lixo na rua, os urubus apareceram para fustigar o homem, meus amigos e amigas, filhos e filhas de Deus, aqui estamos, vamos orar, pelo pastor Josivânio, fustigado por Satanás disfarçado de urubu. Atentai-vos óh que o Diabo não dorme, vamos orar a Deus, Amém?! Amém!? (um barulho infernal dentro da igreja em que se escuta de forma muito intensa "Amém! Amém!"). Depois de amanhã, quando voltarm...
(o áudio é interrompido aí nada mais havendo a registrar)
Irmãos, irmãs, amém! amém? (coro responde: amém!). Fico feliz de ver aqui vocês presentes, firmes na rocha, nesses dias que celebram tudo menos a Deus. Conto quantos? Uns vinte? O casal ali que veio nos visitar, da congregação de Juracitaba, Deus abençoe esse casal, Amém! (coro responde: amém!). O motivo de estar hoje substituindo o pastor Josivânio, não sei se vocês já sabem, alguém? ninguém? aconteceu um imprevisto. Parece que o pior já passou. O pastor está internado e medicado no Regional - vamos hoje a orar a Deus para que ele consiga sair sem consequências de lá, amém?! (coro responde: amém!). Fui avisado agora a tarde pela sua esposa, mulher tenente (sic) a Deus e ao esposo, cuidadora, do lar, me ligou à tarde perguntando se poderia vir substituí-lo. Um pedido desses é uma ordem! Claro que vim e aqui estou. Com a graça de Deus! Amém?! (coro responde: Amém!). Vou explicar o que aconteceu porque o que quero falar hoje tem a ver com o ocorrido. O tema será sobre o que a Bíblia nos diz sobre as aves de rapina já que explicitamente vocês não vão encontrar não a palavra urubu nos textos sagrados...
(pausa de alguns segundo do pastor, pode-se ouvir um burburinho, aparentemente alguns fazem cara de espanto, ele retoma)
...sim, os urubus. O pastor foi vítima da ação deles...
(um som mais alto de conversa, ouve-se uma voz masculina "pastor, está tudo bem? como assim urubu? o que foi que aconteceu?" continua o chiado, agora uma voz feminina "conta pastor...está tudo bem? ele foi atacado??" pastor retoma)
...meus irmãos, minhas irmãs, calma, está tudo bem agora, o pastor já foi medicado, peço a paciência de vocês para contar, acalmem-se, estamos entregues a Deus, amém?! (coro em resposta: amém!), pois bem, o pastor foi cumprir seu dever de bom esposo, acordou às sete da manhã, assim contou para mim sua esposa, depois do café ele foi cuidar do lixo, ensacou tudo e foi até a rua. Tomou um susto muito grande quando viu uns quinze urubus em frente de sua casa, os urubus, essas aves, haviam esparramado o lixo dos outros vizinhos em um grande trecho da rua, parece que o fedor estava muito forte e o pastor sentiu o primeiro baque aí, ele voltou alguns passos, deixou o lixo na cesta e voltou pra dentro de sua casa, jogou uma água no rosto, a esposa me disse que ele se sentou, reclamou do fedor bastante forte na rua da carniça, ela me disse também que ele estava impaciente e ficou um pouco alterado, imagina vocês irmãos e irmãs nosso pastor tão tranquilo e calmo Josivânio ficando irritado? O fedor era muito só podia ser. Mas o que pior de aconteceu foi depois. Uns quinze minutos depois o pastor saiu de novo. Ficou irritado sabe por que meus irmãos e irmãs? (pausa, parece com o som do pregador bebendo água), os urubus, essas aves, não atacaram o lixo do pastor? Em menos de vinte minutos tudo que ele havia embrulhado estava lá estraçalhado na rua, o pastor vendo aquilo, olha como não ficar nervoso, ele pegou algumas pedras, vejam vocês que mesmo um homem tenente (sic) a Deus como não está em total segurança dos riscos desse mundo, ele pegou umas pedras e começou a atirar nos urubus, essas aves, algumas voaram, ele saiu correndo atrás de uma e irmãos, irmãs, ele acertou uma e acabou matando um urubu...
(silêncio..uma pausa de alguns segundos, um burburinho, escuta-se uma voz masculina que parece estava sentada ao fundo da igreja "eu teria feito o mesmo, perdão a Deus, mas teria feito sim, tem dias que o caminhão do lixo não passa, nesse carnaval, povo pra praia, bebida, tem, mas esquece do povo de Deus que fica aqui orando, trabalhando, desrespeito, Deus me perdoe, mas eu teria feito o mesmo", o discurso faz aumentar o barulho...o pastor intervem)
...sim, acalmem-se meus filhos e filhas de Deus, sei, da zanga, sei que vocês devem estar impressionados, chateados, parece forte mesmo, assim, dizer "o pastor matou um urubu" mas olha, ele ainda sofreu por isso porque na corrida atrás de um urubu teve um leve mal estar, acabou tropeçando, ficou desmaiado, foi acordado pela esposa, tudo isso ela me contou, e relatou sentir algumas dores no pescoço, mas ela correu e ligou pro Samu, amém?! (coro responde: amém!), sim, Deus é bom porque o Samu não apareceu não, parece que errou o bairro e nosso Deus abençoou o vizinho que voltou antes da praia, parece que se arrependeu, viu muita coisa errada na praia, Deus tocou o coração desse vizinho, ela pediu por socorro e eles dois levaram o pastor para o Regional. Isso foi tudo hoje de manhã, mas ainda não temos diagnóstico...precisamos ter fé que não seja nada grave, amém?! (novamente o coro: amém!).
(segue-se uma pausa, ouvem-se passos, parece que o pastor anda de um lado para o outro, retoma a pregação)
Irmãos, irmãs, fiquei sabendo disso tudo hoje de manhã e tirei a tarde para pensar sobre o que iria apresentar como tema para nossas reflexões de hoje, porque, vocês, devem estar se perguntando sobre o fato do pastor ter matado um animal? Estão? Antes de prosseguir, me respondam, certo? (um silêncio, ouve-se timidamente um uma voz feminina "olhar, pastor, sim, me chocou um pouco", pastor retoma)
...sim minha irmã, é essa a pergunta: pode um homem matar um urubu, principalmente se esse homem é um homem digno que honra a Deus? essa é uma pergunta, mas a gente precisa saber primeiro o que a Bíblia fala sobre urubus, lembram do início que falei? a Bíblia não cita urubu, ela fala sobre aves de rapina. Tudo foi muito corrido hoje, minha ideia, para que fosse possível ser apresentada, fui até a internet, no Bíblia online, sim, irmãos e irmãs, não é pecado usar a Bíblia na internet, é até auxiliadora para pesquisar com mais precisão a palavra de Deus, mas depois confirmei tudo o que estava na internet na nossa Bíblia impressa, sim, joguei o termo e pesquisei...aqui alguns resultados e passagens. Vou apresentar então a vocês para a gente tentar responder a pergunta: pode o homem inocente matar sem culpa um urubu? essas aves de rapina? antes de prosseguir um amém para nosso pastor que está internado, amém?! amém?! (coro responde mais forte: amém! amém, pastor!).
(o trecho acima poderia ser considerado uma introdução para a pregação dado que, há um intervalo de quase dois minutos, ouvem-se passos, aparentemente alguém sobe escadas, chega mais pessoas na igreja, e então o pastor retoma, ou começa)
Irmãos, irmãs, o urubu mesmo não se fala dele na Bíblia. O urubu só tem na América e vocês se lembram que na época do antigo ou novo testamento essa região não era conhecida dos profetas, vamos deixar de lado o motivo disso, pesquisei não só na Bíblia, mas também em alguns sites de pesquisa, muitas confusões e muitos termos ein, urubus, abutres, corvos, é tudo a mesma coisa? não, a biologia, a ciência dos homens, classifica e especifica tudo de uma forma, mas vamos tomar o abutre, que tem no Livro Sagrado, como sinônimo do comportamento, da ave que rapina, que come e cerca a carne em decomposição, antes ainda, todas essas são aves, são pássaros, pois o que o Gênesis o livro da criação fala dos pássaros? Os pássaros foram criados no quinto dia, as aves são colocadas sob o firmamento do céu e sobre a Terra. Em Gêneses 1, 26 Deus depois de ter criado o homem no sexto dia, manda que sua criatura domine as aves do céu e os outros animais. Aqui, irmãos e irmãs, já podemos questionar como é possível essas aves, os urubus, não respeitarem a palavra de Deus ao desrespeitarem os homens? Ou por que será que o homem não consegue dominar essas aves? Muita coisa mudou de lá para cá e a gente não pode saber se antes da chegada da palavra de Deus nesse continente os nativos dominavam as aves? Não sabemos, não há como saber! Os urubus, prestem atenção, muita coisa mudou do Gêneses, da criação para cá, ah sim irmãos e irmãs vocês sabem como as coisas tem mudado, mas sigamos firmes na rocha, amém?! (coro responde: amém!).
(o pastor é interrompido, parece que alguém o chama até a porta, pode-se ouvir muito baixo o que parece uma conversa, duração de dois minutos, ele volta à pregação)
Irmãos, irmãs, ainda no Gênesis no capítulo quinze versículo onze Abraão enxota, vocês sabem o que é enxotar irmãos, irmãs? Meter caneladas e corridas atrás dos pássaros para que eles avooem para bem longe, as aves que cerceavam os cadáveres . Essa passagem, imaginem vocês, Abraão não saiu para colocar o lixo na rua, ele fazia uma oferenda, mas vejam aí que já naquele tempo, Abraão afugentava os carnicentos igual o nosso querido pastor fez hoje com os urubus. Abraãããããoooo (parece que o pastor ficou empolgado e segurou a sílaba final por alguns segundos) ele sim, o grande patriarca, botou pra correr os carnicentos. Agora há uma passagem no Deuteronômio, Moisés interditando que se coma a carne de determinadas aves, o abutre é uma delas, mas não precisamos entrar nos detalhes porque não é o caso, graças a Deus, apesar da miséria e da fome nessa cidade, ninguém ainda saiu à caça de urubus para...(silêncio, interrupção, o pastor parece notar um ar de constrangimento, feições de estranhamento, retoma), sim, sei que vocês podem achar isso, eu diria, nojento não é? mas bem, quem conhece o homem na fomem? (sic)
Então, o homem que não pode se alimentar dessa ave porque sua carne, sua carne, se alimenta da carne dos mortos, pode então o homem matá-la? Pode irmãos e irmãs? Alguém? Alguém? É uma pergunta...pode responder quem quiser, só levantar a mão...(alguém faz uma pergunta, voz feminina "pastor, mas e o não matarás? é certo?, pastor retoma)
Boa pergunta, irmã, lembre-se do Gêneses falando pro homem dominar as aves, lembremos do Deuteronômio dizendo que algumas carnes podem outras não, mas lembrei não é? É carne para sustento, o pastor não matou para o alimento, mas por causa de um ultraje sofrido...pode o urubu ultrajar o homem? Não está na Escrituras, verdade, que não matarás a não ser o ser humano, o ser que tem alma, o urubu, o urubu é um predador, ele anda em bando...você já viu, irmã? Um urubu alguém criar um como se cria um cão? Alguém já deu nome a um urubu chamando de Totó ou Pupi? O urubu briga entre eles apesar dos bandos, eles não dividem...o urubu, vou precisar de mais tempo, vocês sabem? Aquela hora que me chamaram na porta? Precisarei sair, uma urgência, nada relacionado ao pastor, mas é uma ajuda que também tem a ver com o ultraje, eu explicarei...vou encerrar e preciso indicar para vocês, olha, o pastor não errou porque Deus manda combater o diabo não é? Irmãos e irmãs, o urubu é uma legião, o urubu é o Demônio, precisamos, precisamos enfrentar o Satanás não é irmãos e irmãs? NÃO É? (parece que o pastor começa a gritar) digam, sim? sim? (Ouvem-se várias vozes ao mesmo tempo gritando "sim! sim!", um barulho infernal, latidos de um cachorro ao fundo que pode ter sido atiçado pelos fiéis dentro da igreja)
A quaresma, esse período que representa a tentação de Satanás a Cristo no deserto, olha, olha, nossa igreja, vocês sabem, a gente protestante, a quaresma, o jejum, nosso é o de todos os dias, não precisamos fechar a boca para os alimentos perniciosos, as bebidas, não bebemos, apesar de que, nós, povo de Deus, a gente vem comendo muita carne processada, vocês sabem, essas redes de fast-food no shopping novo não é isso? Eu andei por lá semana passada, vi alguns dos nossos irmãos e irmãs por lá, enfim, a quaresma, mas lembremos da quaresma o período que Satanás fustigou Jesus, começa na quarta de cinzas certo? Mas aqui começou antes, começou, começou com esse tanto de lixo na rua, os urubus apareceram para fustigar o homem, meus amigos e amigas, filhos e filhas de Deus, aqui estamos, vamos orar, pelo pastor Josivânio, fustigado por Satanás disfarçado de urubu. Atentai-vos óh que o Diabo não dorme, vamos orar a Deus, Amém?! Amém!? (um barulho infernal dentro da igreja em que se escuta de forma muito intensa "Amém! Amém!"). Depois de amanhã, quando voltarm...
(o áudio é interrompido aí nada mais havendo a registrar)
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
V - Deslizes
Ele deslizou o dedo distraidamente no botão errado
daquele aplicativo que promovia encontros aleatórios. A ideia era aplicar uma
espécie de “gostei” comum mas acabou queimando o único “super gostei” que ele
tinha disponível na versão não-paga do programa. Não que necessariamente fosse
um estrago irreversível. Ele diria sim a ela, mas não um super sim. Usava sem
acreditar que aquilo fosse render alguma coisa. A configuração que
estabelecera, os parâmetros, abria o espectro de perfis, de mulheres, presentes
em toda a região desde São Mateus no longínquo Espírito Santo até Porto Seguro
ainda no sul da Bahia. Claro que, sem carro, não iria a canto nenhum. E mesmo
se fosse de ônibus, em pleno período de carnaval? Nem pensar. Mas foi calhar
daquele “super gostei” cair em um perfil de uma mulher, 27 anos, uma única foto
que mostrava um rosto de lábios levemente carnudos, um olhar que parecia ser
castanho, um cabelo preto e curto até a altura do ombro, levemente
encaracolado, sua cabeça estava ligeiramente pendente para o lado esquerdo,
enfim, ela era de uma beleza discreta, e mais, ela estava a apenas 15
quilômetros de distância, ou seja, na mesma cidade, em De Freitas.
Ela estava deitada no sofá, quase deslizando da
napa de couro até a ardósia do piso, com um sono irregular, quando um toque no
celular informava uma notificação. Era quase dez da noite, de um domingo de
carnaval o qual ela se decidiu por ficar em casa. Sua amiga do trabalho, amiga
de farra, quis a levar para Caravelas, mas declinou de imediato. Optou por
passar os quatro dias em casa dormindo, e quando acordada, vendo filmes que há
muito estavam no hd externo – todos oriundos de torrent, produto ilegal, mas
que executivo, ela pensou na época quando fazia os downloads, da indústria do
cinema viria até De Freitas fazer uma intimação? Ninguém. Aquela notificação no
celular? Seria a de uma intimação judicial internacional? Nada. Pegou
distraidamente o celular e notou de pronto que era mais uma notificação de
combinação mútua com algum rapaz. Só que, dessa vez, ela recebia pela primeira
vez, desde que instalara o aplicativo há uns dois meses, um “super gostei”.
“Bem”, ele pensou “agora não vou incluir mais fotos
não, vai ficar essa do barzinho e essa com meus primos lá em Medeiros Neto”.
Questão era, muito mais do que as fotos que se apresentavam no perfil, como
explicar por aquela escolha. Realmente ter dado o “super gostei” o intimidava
um pouco. Pensou em desfazer a combinação, mas se ela já havia visto e estava
pronta a apertar o botão de volta? Se passar por um covarde? Foi uma ideia.
Decidiu pelo “deixa acontecer pra ver”.
Ela ficou curiosa. Se o objetivo dele era chamar a
atenção foi exitoso. Mesmo que fosse um sujeito de três anos mais moço, coisa
que não apreciava, mesmo com a cara de um autônomo de informática que trabalha
sem saber se fechará as contas do mesmo, coisa que também não apreciava,
possuidor de uma barba mal feita e que podia ser notada de forma bem distinta
ainda que nessa foto ele estivesse sentado em um boteco daqueles bem esculhambados
no Nova América, coisa que ela jamais apreciaria, e na outra foto, um pouco
mais comportado, sentado em meio a umas cinco pessoas de diferentes idades,
talvez familiares, no que parecia ser uma casa situada em alguma dessas
cidadezinhas próximas de De Freitas, coisa que agora ela apreciaria um pouco,
“não é de todo louco” tem um jeito de considerar a família – mesmo que isto não
significasse de forma alguma garantia de idoneidade. Pesando o sim e o não, o
talvez e o possível, o muito e o pouco e o mais ou menos, ela confirmou.
Apertou o botão de volta como se dissesse “aceito” mas não deixava de ter no
fundo curiosidade porque ele havia encontrado nela algo para que chamasse
atenção suficiente para ganhar um “super gostei”. Ela, sem nem perceber, talvez
estivesse mais preocupada em saber sobre aquele motivo de ser merecedora de tal
crédito do que propriamente interesse nele. Era mais questão de dúvida do que
de afeto.
Ele, pasmado. Ela aceitou e puxou
conversa no mesmo momento. Aquelas passadas de dedo dele na tela do celular sem
compromisso algum havia se transformado em uma situação incontornável. O jeito
era responder e foi o que ele fez. As estórias, disse alguém, não são contadas
mas se contam. Muitas estórias de encontros podem seguir pelo mesmo caminho. Os
diálogos não são tão bem preparados, vão sem rota e objetivo e durante o
próprio percurso encontram um destino, ou ao menos, uma hospedagem para uma
noite ou duas. Madrugada. Para não dormir, ele liga a televisão enquanto passa
os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro da Série A. Ele nem sabia,
apesar de envolvido na conversa, que no samba também tem divisão e que, tal
qual um clube de futebol, se alguém for ruim demais, é rebaixado a uma série
inferior. Isso não fora citado à toa. Ele escreveu isso na conversa. Ela, que
não dava a mínima para futebol, ficou sem entender menos ainda a questão das
divisões. Os assuntos se multiplicam sem rumo algum - importante é que eles
tenham assuntos. Até que, quase perto de ficar perto da manhã, uma ideia vinda
dele, que até então nenhum dos dois cogitavam, é posta em discussão: por que
não se encontrar na terça de carnaval? compromisso de algum dos dois? Não? Que
tal o shopping do centro? Às moscas. A cidade abandonada. Ela pensa e fala que
responderá até meio dia. Ele não se importa. Diz que até esse horário será
possível combinar qualquer coisa, afinal, quando o dia está branco, qualquer
risco sobre ele é um sinal - dá-lhe significado. Para ele, era mais questão de
matar o tempo do que cultivar um sentimento.
Ela acorda. O dia, terça de carnaval, levantara-se quatro ou cinco horas antes. Enquanto prepara o café, pega o celular e começa a rever as fotos. Duas apenas. Vai até a conversa. As conversas. São duas. Na primeira, mais simples, reclamações sobre o chat do programa não funcionar muito bem. É instável. Trocam os números e vão, ou vem, para um aplicativo próprio de conversas. Ela relê atentamente. Em nenhum ponto ele explicara qual motivo ou o quê o levou a meter um "super gostei" no perfil dela. Nem por isso desiste. É por causa disso que enquanto tomando o café chega à conclusão que há uma segunda chance. O encontro da tarde. Eles vão andar por aí. No shopping. Tem alguns banquinhos. Lá sim ela poderia colocá-lo, senão contra a parede, contra o encosto de cimento. Tudo isso por causa de um "super gostei". Qual o propósito disso ela se pergunta e termina cochichando a si de forma que nem ela mesmo conscientemente escute "que caralho de dúvida!". Aproveita que está com o celular na mão e confirma: às quatro na Praça da Bíblia. Ela pega um moto-táxi. Ele também irá assim. Sua moto estava na oficina. Era mais questão de necessidade do que de escolha.
Às 15:30 o sol em De Freitas queimava cada porta de comércio fechado ou aqueles que estavam estranhamente e facultativamente funcionando. Ele, o rapaz e não o sol, pediu para que o moto-táxi o deixasse em frente a farmácia alguns metros antes da praça. Foi meia hora mais cedo porque não saberia como se portar chegando após ela - como se apresentaria. Chegando antes, sentaria em algum lugar fingindo uma pose de quem espera sem expectativas. Estranhou a pastelaria chinesa aberta: "ou os chineses não foram avisados sobre o carnaval ou eles não gostam dessa farra toda". Entrou e tomou um caldo. E depois pegou uma bala de hortelã e foi até à praça. Quando curvou a esquina, às 15:45 viu uma moça em frente ao palanque da praça da Bíblia. Ela havia chegado primeiro.
A última vez que ela havia feito algo do tipo? Um encontro combinado por internet ou celular? Há uns quatro anos. Desastradamente. Um silêncio. Um cinema. Silêncio durante o filme - o que não era necessariamente ruim, e silêncio depois até à meia-noite quando se despediram sem nem mesmo a ameaça de um beijo. Com 27 anos pensava que determinadas situações já deveriam ser lentamente deixadas ao abandono. Namorinho de portão? Na praça? O que a levava ali se não aquela dúvida? Sua auto-estima a movia. É porque a cidade estava quase vazia que se propôs ao método do encontro na pracinha. O risco de ser vista por algum conhecido ou ser zombada ou mesmo "o que vão pensar de mim" diminuía em uma cidade como De Freitas durante o carnaval. Assim, pensou, se a ideia era avaliar tudo desde o mais princípio, ela foi às 15:20 para olhar as portas de cada mercado, fechado ou não, serem queimadas pelo sol. Ela observava tudo debaixo de uma árvore. De uma modesta sombra.
Eles se encontram às 15:46. Misteriosamente tudo se passa de uma forma natural como se já conhecessem. Eles concordam que na praça não tinha condições nenhuma para se ficar. Vão andando e conversando até o shopping. Quase uma repetição das conversas pelo celular com breves variações ou inclusões de tema. Falam de como a cidade ficou vazia, reclamam da quantidade de lixo nas ruas, se o caminhão não iria fazer coleta, explicam por que ficaram em casa sem ânimo para qualquer lugar. Dizem que lugar para ficar não era o problema mas, por outros motivos, desanimaram. Ele queria adiantar os serviços, ela descansar. Tudo normal. Chegaram à praça de alimentação às 16:10. Antes passaram em frente à sala de cinema e viram os filmes em exibição. Todos sem legenda, apenas dublado. Por causa da lembrança do último encontro de anos passados, ela inventou outro motivo e sugeriu beber algo. Ele concordou. Entre o calor da praça de alimentação, aberta, sem ar e o frio da sala de cinema, com ar e sem chopp, a escolha era mais apropriada. A praça estava relativamente vazia. Funcionários demonstravam uma face de que não gostariam de estar ali naquele dia para atender um casalzinho ou outro. E aqueles dois ali? Nem casalzinho mesmo eram - um dos garçons percebeu por causa de um conhecimento adquirido em décadas.
Quando sentados, ainda conversando, em determinado momento, ele deslizou sem cuidado o olhar para a região entre os seios dela. Ela vestia uma camisa de pano leve, um bege fraco, possuía uma gola mais aberta que permitia, se visto de um ângulo apropriado, o contorno interno dos seios. Ele percebeu que ela captou aquele deslize, e fingiu olhar ao lado para não deixá-lo sem graça ao passo que ele também acompanhou-lhe o olhar em retribuição.
Ela aproveitava para investigá-lo, a cada breve olhadela, um detalhe do rosto daquele rapaz, seu porte, seu jeito de falar, isto tudo a permitiu ir formando um conjunto no qual o resultado era "ele não é tão estranho assim, é até bonitinho". Começava a se inquietar, contudo, sobre o mistério do "super gostei". Volta e meia ela pensava em uma forma de conduzir a conversa para o ponto que permitisse lançar fulminantemente a questão. A dúvida. Se fosse possível, o encontro poderia terminar e ela voltaria para casa com o pequeno tesouro resgatado. Só que, de todas as variações do assunto, nenhum permitia que ele se encontrasse em posição indefesa.
Ficaram por ali até às 16:50. O álcool afrouxou-lhes
a suspeição que cada um guardava para o outro. Ainda a bebida mandou embora os
limites de determinados temas, mas tomou-lhes igualmente o juízo para escolher
lugares para passear. O sol começava a parar de queimar tudo e tudo parecia chegar
ao estado final de derretimento naquele feriado. Da praça da Bíblia à praça de
alimentação do shopping à praça da prefeitura. Uma escolha insólita qualquer um
é capaz de saber disso. A praça da prefeitura tem um formato de trapézio retângulo
sendo toda desnivelada. Na parte superior passa a avenida Getúlio Vargas e na
inferior a avenida Marechal Castelo Branco. Antigamente, até o início da década
de 2000, a praça era repleta de trailers de lanches, de barraquinhas, uns botecos.
Era ponto de encontro dos finais de festa. Como o trailer basicamente saiu de
moda, restou a praça sem atrativo algum, com suas árvores supostamente antigas,
com meio fios quebrados, e atualmente, de atração apenas uma barraca de
acarajé. É um lugar que poderia muito bem ser menos insólito do que se tornou.
Ele sugeriu a praça da prefeitura. Ela
devolveu com um olhar de “a praça?” ao mesmo tempo que não tinha nenhum outro
lugar para sugerir. Como era uma praça sem bancos [talvez devêssemos começar a
questionar se vale a pena continuar a chamar aquele lugar de praça], sentaram
ali em uma das bordas dos canteiros. Um ao lado do outro. Agora já passava das
17:30 e o efeito do pôr do sol começava a distribuir tons de laranjada em todas
as nuvens. O sol se punha para o lado de Medeiros Neto. O pôr do sol, ele
elogiou, era uma coisa que costumava realmente encantar na cidade.
É porque, ela interveio, a cidade jamais
teve algo de belo aqui embaixo. As pessoas acabavam olhando para o alto e esse olhar
constante acabou por realçar o efeito do fim de tarde. Com o tempo, ela
explicava, o pôr do sol se tornou o único evento turístico, se tivesse de se
eleger algum dia um, digno de ser apresentado a alguém de fora. Mas, concluía
ela, o evento sendo só uma parte do dia, durante a outra parte do cotidiano
aberta para outras atividades de observação, sem lugar para ir ou visitar, as
pessoas começaram a olhar umas para as outras e, pior, antes fosse para
admirar, mas não, o objetivo era olhar para falar. Falar da vida alheia. Mais
do que trabalho, futricagem – o esporte favorito local.
Ele entendeu e concordou. Principalmente
na parte que ela dizia sobre olhar para os outros porque foi justamente naquele momento que ele acabara por deslizar
novamente o olhar para os seios dela. Ela viu que não haveria momento mais
oportuno, dessa vez, para dar o bote. Ela o fulminou olhando nos olhos dele.
- Você realmente gostou deles né, moço?
- Deles? Deles quem?
- Ora, desde lá do shopping você vem
tentando despistadamente olhar os meus peitos, pode olhar, eles não mordem, é a
boca que faz isso você deve saber, mas talvez você não saiba que é péssimo em
despistar...
- É, é, certo, olhei...
- Mas na minha foto do aplicativo, era
só o rosto, não tinha peito nenhum lá, qual foi o motivo?
- Motivo? Sim, motivo...olha, eu não
sei se conseguiria explicar...
- Você realmente não sabe...talvez
saiba outra coisa...
Sair de casa, beber, andar, conversar.
Que sujeito. Ela saiu enumerando todas aquelas atividades, chegou a conclusão
que aquele pobre desastrado com quase 25 anos, mesmo sob o efeito liberalizador
do álcool, não sairia do lugar, nem daquela praça. Ela pensou que ele seria a
sua diversão de carnaval. Sua folia. Passou-lhe a mão pelo seu pescoço o beijando
depois de ter dito:
- Vamos ver se ao menos beijar sabe...
Ficaram ali se beijando, sentados de
lado. Péssima posição para se beijar, verdade. Contudo, a posição não foi
suficientemente forte para que os dois não permanecessem por ali mais de uma
hora depois do primeiro beijo. Ele percebeu que o certo ou o melhor a se fazer
era se deixar acompanhar pelo que ela haveria de se decidir ou fazer. A noite caía
na praça. O movimento dos carros começava a tomar corpo e volume por causa das
pessoas que trabalhavam na quarta de manhã e retornavam das praias. Ela sabia
que amor de praia não sobe a serra, mas ali não tinha praia nem serra. Tinha o
centro e o São Lourenço onde ela morava. Sua amiga de república só voltaria na
quarta à noite. A casa era dela. Por que não ser também dele por uma noite? Longe
da praia, da serra, poderia ainda dizer que aquilo seria amor?
Eles, os dois, foram para a casa dela.
E transaram duas ou três vezes, ora como conhecidos ora como completos
desconhecidos. Deitaram quase de madrugada. Ele acordou às cinco e meia da
manhã com um som que vinha do fundo da casa. Levantou, caminhou até a cozinha,
abriu a porta e ficou observando um urubu que pousara no quintal e que começou
a revirar as sacolas de lixo. Ela, de sono leve, despertou, com um início de
uma ressaca, e foi no lugar onde ele estava e o encontrou nu encostado no
portal e perguntando o que foi.
- Nada, é um urubu!
A amiga dela não colocou o lixo nas
ruas. Deixou tudo bem amarrado mas ainda assim o urubu foi teimoso o suficiente
para revirar e bicar e estraçalhar todo aquele saco. Ela, sem calcular o efeito de seu gesto, chegou por trás e deu-lhe um abraço. A reação daquele que recebia o abraço foi
deixar que ela deslizasse os braços na região do seu peito enquanto dava-lhe pequenos
beijos em suas costas. Ela por fim desistiu de tentar descobrir o motivo de ele
a ter dado um “super gostei” no aplicativo. Começou a perceber que as pessoas, às vezes, como as estórias que se contam, apenas se gostam. Mesmo que tudo tivesse
em sua origem um descuido, ou um deslize.
domingo, 11 de fevereiro de 2018
IV - Três dias fora
Alguma casa na rua Sagrada Família, bairro Bela Vista, De Freitas. Domingo, 15:45
- Filho? Então não vai mesmo?
- Sem problemas, pai. Preciso aproveitar esse silêncio. Já que todos viajaram, posso adiantar minhas leituras e descansar da última semana. O trabalho foi puxado.
- Bem, eu e sua mãe não iríamos sair nesse carnaval. Mas seu avô acabou levando sua tia para o Prado. Tem muita gente lá, pelo que ele me disse. Deve estar uma bagunça...se quiser a gente vem aqui e te pega na terça, ao menos até quarta..
- Não, pai..tudo bem, tem aquela consulta no médico que é na quinta, prefiro mesmo repousar. Pode ir tranquilo. Estou bem. Vou até puxar a rede ali na varanda e ficar curtindo um estalo de um galho caindo, alguém passeando...
- Feche a casa, então...semana retrasada arrombaram a casa de Júlio, gerente daquela loja no centro, arregaçaram o som do carro...não tinha ninguém na hora
- Fiquei sabendo, mas é bom ficar alguém que assim evita de chamar a atenção de bandido, ligarei a tv, um som de vez em quando...como disse, pode ir tranquilo, vou chefiar o Bela Vista...
- ah vai...(risos)
- e o lixo, ponho na rua? o caminhão só deve passar na quinta não é?
- provavelmente, até o prefeito deve estar em alguma praia afundado com aquela cara de jabba no whisky falso...
- o jabba the hutt? verdade, parece mesmo, nunca tinha me tocado pra isso...(risos)
- ok, sua mãe está lá no carro aguardando, qualquer coisa você me liga se mudar de ideia, ou eu aviso se tiver alguma novidade.
- certo, boa viagem pra vocês! até mais capitão!
Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 17:00. Recebida às 17:50.
"Filho, chegamos agora. Atrasamos um pouco porque havia alguns carros na estrada. Pensei que quem tivesse de viajar, já o teria feito. Vamos descansar, talvez saiamos mais tarde para ver o movimento. O Prado está meio vazio. Poucos turistas. Está até tranquilo. Ah, seu avô manda abraço e disse para você não levar nenhuma prostituta pra casa"
Alguma rua próxima ao trevo, De Freitas, mensagem enviada de celular para o pai às 18:25. Recebida às 19:05
"Fala com vô que passei em frente do Stop há alguns minutos. Que véi safado! Vim fazer uma caminhada. Estou voltando. A cidade parece o velho oeste. Vi um grupelho de cinco rapazes passando de bicicleta perto do estádio. Suspeitos, muito suspeitos. Não vi nenhum carro da PM. Será que todos os militares fizeram como você e deram o fora pra praia? rsrs"
Centro do Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 19:10. Recebida às 20:00
"Certo, fica de olho. Você tem o número lá da guarnição. Se precisar de apoio, liga pro cabo Gertrudes que ele dá um help. Sinal está ruim aqui. Até."
Padaria no centro de De Freitas, mensagem enviada de filho para pai às 20:40. Recebida na segunda às 10:40.
"Relaxa, aproveita aí. Vim de bicicleta até a padaria para comer um lanche. Ainda bem que não estava fechada. Vi dois rapazes andando de bicicleta aqui por perto. Mas já sumiram. Amanhã dou notícia. Boa farra pra todos! Abraço, pai!"
Alguma casa na rua Sagrada Família, bairro Bela Vista; De Freitas. Domingo, 21:20
Barulho de vídeo game relativamente alto chama a atenção na rua. Um vizinho toca na campainha perguntando se está tudo bem. Jovem de 19 anos aparece afirmando que sim e explica que é um jogo de tiro.
21:25
O volume do som fica um pouco mais baixo.
22:00
Dois rapazes de bicicleta passam pela rua e param em frente a uma determinada casa. Um desce da magrela enquanto o outro fica segurando. Movimento zero nas redondezas. Rapaz pula muro.
22:10
Jovem de 19 anos, o que jogava vídeo game, destrava a porta pensando que novamente o haviam chamado. Escuta-se sons, aparentemente, de briga.
22:20
Rapaz que havia pulado o muro, joga uma mochila para o outro que havia ficado na rua. Ele apanha. E avisa para o que o invasor seja mais rápido.
22:21
Ouve-se o que parece ser um tiro de arma calibre 38. O vizinho não se preocupa. Sabe que se trata do jovem distraindo-se com jogos violentos.
00:00
O domingo de carnaval acaba. Há mais de uma hora a casa do rapaz está em completo silêncio.
Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 17:00. Recebida às 17:50.
"Filho, chegamos agora. Atrasamos um pouco porque havia alguns carros na estrada. Pensei que quem tivesse de viajar, já o teria feito. Vamos descansar, talvez saiamos mais tarde para ver o movimento. O Prado está meio vazio. Poucos turistas. Está até tranquilo. Ah, seu avô manda abraço e disse para você não levar nenhuma prostituta pra casa"
Alguma rua próxima ao trevo, De Freitas, mensagem enviada de celular para o pai às 18:25. Recebida às 19:05
"Fala com vô que passei em frente do Stop há alguns minutos. Que véi safado! Vim fazer uma caminhada. Estou voltando. A cidade parece o velho oeste. Vi um grupelho de cinco rapazes passando de bicicleta perto do estádio. Suspeitos, muito suspeitos. Não vi nenhum carro da PM. Será que todos os militares fizeram como você e deram o fora pra praia? rsrs"
Centro do Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 19:10. Recebida às 20:00
"Certo, fica de olho. Você tem o número lá da guarnição. Se precisar de apoio, liga pro cabo Gertrudes que ele dá um help. Sinal está ruim aqui. Até."
Padaria no centro de De Freitas, mensagem enviada de filho para pai às 20:40. Recebida na segunda às 10:40.
"Relaxa, aproveita aí. Vim de bicicleta até a padaria para comer um lanche. Ainda bem que não estava fechada. Vi dois rapazes andando de bicicleta aqui por perto. Mas já sumiram. Amanhã dou notícia. Boa farra pra todos! Abraço, pai!"
Alguma casa na rua Sagrada Família, bairro Bela Vista; De Freitas. Domingo, 21:20
Barulho de vídeo game relativamente alto chama a atenção na rua. Um vizinho toca na campainha perguntando se está tudo bem. Jovem de 19 anos aparece afirmando que sim e explica que é um jogo de tiro.
21:25
O volume do som fica um pouco mais baixo.
22:00
Dois rapazes de bicicleta passam pela rua e param em frente a uma determinada casa. Um desce da magrela enquanto o outro fica segurando. Movimento zero nas redondezas. Rapaz pula muro.
22:10
Jovem de 19 anos, o que jogava vídeo game, destrava a porta pensando que novamente o haviam chamado. Escuta-se sons, aparentemente, de briga.
22:20
Rapaz que havia pulado o muro, joga uma mochila para o outro que havia ficado na rua. Ele apanha. E avisa para o que o invasor seja mais rápido.
22:21
Ouve-se o que parece ser um tiro de arma calibre 38. O vizinho não se preocupa. Sabe que se trata do jovem distraindo-se com jogos violentos.
00:00
O domingo de carnaval acaba. Há mais de uma hora a casa do rapaz está em completo silêncio.
III - O cão com asas
A primeira palavra que Sabrina tinha aprendido a falar de forma completa, muito antes da palavra mamãe, foi urubu. Ela até começou com "má-má..." como quase toda criança, mas além disso, por causa da sacada do apartamento, no bairro Recanto do Lago, que dava vistas ao Vale dos Mortos, lugar de uma antiga represa que servia para desova de cadáveres, ela também aprendeu a ficar repetindo "ú ú ú..." porque o pai ou a mãe com ela ainda no colo, percebiam eles que a menina não tirava os olhos do céu vendo aqueles pontinhos negros realizando um balé no espaço. Eles entendiam e diziam para ela "é o urubu, filha, urubu" e ela silabava "ú, ú, ú...". Assim antes de passar do "má-má" a mamãe, Sabrina havia ido direto do "ú-ú" a urubu.
Grande descoberta aconteceu, logo depois que ela acabara de fazer dois anos, quando viu os urubus na sua própria rua. Em frente ao prédio não havia casas ou apartamentos - era só aquele Vale dos Mortos, silencioso, outrora depósito clandestino de gente, agora depósito temporário de lixo. Quando o lixo não cabia no gradeado que o condômino havia posto do outro lado da rua, os moradores colocavam ao redor do cesto de metal, pois, com a coleta regular, o bagulho doido ficaria por pouco tempo exposto. Esse pouco tempo para urubus, no entanto, era sempre suficiente. Foi isso que impressionou a pequena Sabrina. Os urubus, até aquele momento vistos sempre como animais do espaço, foram vistos tais como os cachorros vira-latas. "Urubu, urubu" dizia fazendo aquele pequeno gesto com as mãos como se chamasse um cachorrinho. O pai apenas achava graça e comentou com a esposa, naquele dia de descoberta, que Sabrina aparentemente confundiu os urubus com cachorros.
No domingo de carnaval, o pai de Sabrina desceu do apartamento com duas sacolas de restos para ver a condição da rua e a quantidade de lixo. Se fosse pouco, colocaria as duas sacolas no cesto ou na rua, ainda que elas ficariam ali até à quinta-feira, pois o calendário da coleta no bairro indicava terça, quinta e sábado. O problema é que, também do prédio, muitos haviam viajado na sexta e sem saber que a coleta de sábado não seria realizada, quase todos os vizinhos fizeram o seus dízimos de detritos. A situação já estava calamitosa. Os urubus tiveram todo o sábado para revirar o quanto puderam todas aquelas sacolas. Pouca coisa foi deixada. Mas eles voltaram no domingo porque um vizinho do apartamento de baixo viajou no sábado deixando mais seis sacolas. Esse vizinho havia feito um churrasco na sexta. O pai de Sabrina só foi perceber tudo isso no domingo. Assim voltou para o apartamento com as duas sacolas de lixo na mão.
Contando para a esposa, ela decidiu descer e Sabrina fez um gesto para que fosse junto. A mãe a colocou no colo e lá foram as duas. Dois ou três urubus andavam próximos como se tivessem a expectativa de alguma novidade. "Urubuzim, urubuzim" dizia Sabrina do colo. Ela já havia aprendido os diminutivos. Ela também notou que os urubus estavam tristonhos. Talvez fossem daqueles que descobrem o lugar do banquete por último e acabam chegando no final da festa. As duas voltaram. Os pais de Sabrina decidiram não levar o lixo por ser pouco - e por uma questão moral - pensaram que se toda a vizinhança não percebia o problema que poderia trazer deixando tanto lixo na rua por tanto tempo, eles assumiriam o compromisso de não complicar o drama coletivo. O esposo então colocou as duas sacolas em outras para vedar melhor o cheiro. E deixou em um canto. Sabrina ficou por ali pela sala, volta e meia ia até a sacada, que possuía uma tela de proteção, subia no pequeno rodapé que a permitia olhar para rua enquanto dizia "urubuzim, urubuzim..."
Sabrina voltou para sala. Seu pai ligou a televisão e a deixou quieta lá assistindo os desenhos. Comentou com a esposa que sairia de carro para ver se encontrava algum açougue aberto vendendo frango. A esposa aproveitou então para ir tomar um banho enquanto Sabrina estava ali feito um pequeno Buda diante da tela.
O pai saiu sem notar que não bateu a porta na fechadura. Ela ficou apenas encostada. A mãe, lavando suas longas mechas, ficou mais de meia hora no banho. Quando saiu, um susto. Sabrina não estava mais na sala. Nem precisou sair a procurar pelo apartamento porque assim que viu a porta, agora toda escancarada pelo vento, pensou no pior. A menina havia saído e, que risco, poderia ter descido as escadas sozinhas. Saiu em disparada e não achou Sabrina. Deu dois gritos. O prédio estava quase todo vazio. Quando saiu do salão de entrada, percebeu o portão menor igualmente escancarado. Será que foi ela ao sair na rua e quando voltou não bateu com força suficiente? Gritou o nome de Sabrina mais duas vezes.
Ao sair na rua, encontrou a menina sentada na calçada. Um alívio. Mas ao ver o que ela fazia, um pavor: Sabrina havia descido com uma das sacolas de lixo. Abriu e estava retirando restos do almoço do sábado e atirava na direção dos urubus enquanto fazia aquele gesto com mão de chamar cachorro dizendo "urubuzim, urubuzim..."
sábado, 10 de fevereiro de 2018
II - O caso do vil urubu que ninguém viu
Na sexta-feira à tarde Tilu tinha recebido a ligação do gerente da pizzaria de forno à lenha confirmando que o ponto abriria no sábado de carnaval. No mesmo instante Tilu pegou o telefone e ligou para o Zé Joaquim no Duque de Caxias perguntando se poderia ir sábado bem cedo apanhar as lenhas. Tudo resolvido, decidiu que dormiria meia hora mais cedo que o normal para acordar meia hora mais cedo que costumava acordar, ou seja, se tinha por hábito despertar sempre às cinco, na manhã de sábado o faria às quatro e meia. Quando deu oito da noite foi ao terreno baldio que havia na frente de sua casa para confirmar que o burrinho Mitoteo estava bem amarrado. Confirmou também a carroça com a corrente passada entre as rodas e os eixos. Apesar de ser conhecido em todo o Ulisses Guimarães, o que para ele gerava uma falsa garantia de não ser alvo dos bandidos do bairro, de uns meses pra cá muitos larápios estavam vindo, como Tilu dizia, do estrangeiro pra bulinar nas casas do pessoal. Antes de voltar à sua casa, deu um puxãozinho de orelha em Mitoteo e foi dormir. Esse puxão sempre significava algo como "ei, burrinho, gente boa!" ou quem sabe "ei, burrinho, to aqui!"
A ideia de sair mais cedo para o Duque pegar os tocos de lenha era voltar antes das dez e dar tempo de ir no Mercadão Municipal. Como morava sozinho, sua família continuava morando em Rancho Alegre, uma mãe e uma irmã, Tilu queria comprar algumas verduras para cozinhar e frutas pois era certo que muitos comércios e vendinhas ficariam fechadas durante o carnaval. Sua principal atividade era pegar alguns fretes aleatórios, mudanças, móveis velhos e outras bagulhadas no geral e, de dois meses pra cá, havia conseguido o lugar do antigo carroceiro que entregava lenha na pizzaria. A coisa se passou assim: Seu Gegê, na faixa de uns 60 anos, morava no mesmo bairro e desde que começou a sentir algumas dores no tórax, havia pedido Tilu, para entregar lenha no seu lugar. Foi como ele ficou conhecendo o gerente da pizzaria e acabou pegando contato com ele e alguns funcionários. Seu Gegê, numa quinta qualquer, acordou sentindo uma dor muito mais forte no peito. Sua esposa, Dona Gogó, chamou o SAMU que não apareceu porque a equipe da ambulância era nova e se perdeu - o motorista confundiu os nomes dos políticos e foi parar no Tancredo Neves, Tancredão, e não no Ulisses. O jeito foi levá-lo ao UPA na carroça depois de avisarem Tilu que morava duas ruas depois e que, por sorte, estava saindo para um frete. Juntou a dor no peito com a trepidação do veículo de tração animal e Seu Gegê chegou morto antes mesmo de dar entrada no ambulatório.
Na missa de sétimo dia, um funcionário da pizzaria encontrou com Tilu e pediu para que ele aparecesse por lá porque o gerente ficou sabendo de todo o ocorrido com Seu Gegê e precisava de um substituto. A lenha tinha acabado e os clientes começaram a reclamar demais da pizza assada no forninho elétrico adaptado. Muitos queriam desconto de 10% e todas aquelas outras picuinhas como denunciar no Procon, outros diziam denunciar até no Detran - ou por zombaria ou ignorância apenas. Ninguém sabia direito o que falava. Os clientes adoravam uma pizza e gostavam muito mais de chorar no preço, mas se tinha algo que os clientes De Freitas gostavam mais do que tudo isso, era arrumar confusão quando aparecia a oportunidade. Foi nessa situação que Tilu havia assumido, portanto, o lugar do ex-entregador.
Na missa de sétimo dia, um funcionário da pizzaria encontrou com Tilu e pediu para que ele aparecesse por lá porque o gerente ficou sabendo de todo o ocorrido com Seu Gegê e precisava de um substituto. A lenha tinha acabado e os clientes começaram a reclamar demais da pizza assada no forninho elétrico adaptado. Muitos queriam desconto de 10% e todas aquelas outras picuinhas como denunciar no Procon, outros diziam denunciar até no Detran - ou por zombaria ou ignorância apenas. Ninguém sabia direito o que falava. Os clientes adoravam uma pizza e gostavam muito mais de chorar no preço, mas se tinha algo que os clientes De Freitas gostavam mais do que tudo isso, era arrumar confusão quando aparecia a oportunidade. Foi nessa situação que Tilu havia assumido, portanto, o lugar do ex-entregador.
Voltando ao sábado de manhã, deu certo o plano traçado no dia anterior. A serração na rodovia BR-290 que ligava De Freitas ao agora bairro Duque de Caxias - antes era tão distante que se dizia distrito mas a cidade cresceu e quase que juntou tudo - estava forte. Tilu com Mitoteo foram bem devagar e chegaram umas seis e meia por lá. Apanharam as lenhas e às dez já estavam de volta. Pediu à Dona Gogó, agora viúva Gogó, se poderia passar o olho por uma horinha na carroça e a deixou amarrada em frente a um terreno baldio que também existia na frente da casa de Seu Gegê, agora finado Gegê. É de se notar que sempre tem um terreno baldio na frente ou ao lado da casa de um carroceiro. É uma lei real que existe nas cidades que se tem carroceiro. Olha lá se não for o terreno que faz a profissão. No dia que ocuparem todos os lotes vazios, a profissão de carroceiro desaparece. Tilu voltou da feira, apanhou a carroça e Mitoteo, e como o sábado só havia ficado para aquela entrega, decidiu que dormiria à tarde por causa do cansaço da ida ao Duque de manhã - sempre cansativo - e umas quatro e meia sairia de casa.
Mitoteo, ao contrário de Tilu, não pôde dormir, nem descansar. Primeiro que Tilu acabou deixando o burrinho atrelado à carroça, segundo que no terreno baldio alguns vizinhos, provavelmente, antes de viajarem deixaram algumas sacolas de lixo. Como os urubus parecem saber do cronograma de coleta melhor até do que os funcionários responsáveis da prefeitura nessa área, um bando daquelas aves já estavam fazendo uma varredura no local. O caminhão que só passaria na segunda, talvez passaria apenas na quarta. Quatro dias de lixo abandonado. Quatro dias disponíveis para os urubus revirarem aquele patrimônio público de imundície. O lixo estava no mesmo terreno que Mitoteo estava parado. Dali ele só ficou arreparando dois ou três urubus começarem a bicar os sacos. Mitoteo não tinha simpatia por aquele bicho. Ele lembrava vagamente que quando ia dormir com alguma ferida do dia provocada pelos mastros da carroça que tocavam no seu couro, volta e meia era acordado na manhã por algum urubu no lombo. A única defesa era se sacolejar dado que acertar um coice num alvo móvel era tarefa bem mais difícil. Assim passou a tarde de carnaval cercado de lixo e urubus. Pensou, na sua intelejumência, se os burros e afins que vivem no litoral teriam vida mais tranquila no carnaval. Nunca pôde saber porque jamais relinchara com algum burrinho litorâneo.
Tilu então acordou às quatro para realizar sua entrega. A pizzaria ficava quase na outra extrema da cidade. Situava-se na mesma rodovia que ia para o Duque, mas quando acontece de uma rodovia passar dentro da cidade, ela muda de nome e passa a ser considerada avenida. No caso, a avenida Getúlio Vargas. Deve ser outra lei que existe só que agora se aplicando a quase todas as cidades: sempre tem uma avenida chamada Getúlio Vargas. Isto é quase tão certo que há casos, quando alguém está em um lugar estranho e queira mentir sobre um suposto lugar de origem, quando questionado, basta mandar "na bucha" e dizer que reside na avenida Getúlio Vargas. Quando o sujeito que fez a pergunta conhece o suposto lugar e comece porventura a querer saber mais e o conhecimento do mentiroso termine aí, ou seja, a mentira começou a sair do controle, a primeira e única opção é sair o mais rápido da conversa, ou em situação extrema, sair do lugar.
Da casa de Tilu até a pizzaria media-se a distância de sete quilômetros. No caminho Tilu, sua carroça e seu Mitoteo, adentraram no forte fluxo de automóveis indo para a praia. Muitos haviam descido na sexta à noite, outros na manhã de sábado, mas havia quem trabalhasse até o meio-dia e estavam saindo apenas naquela hora. Tilu, com quase trinta anos, jamais passara um carnaval na praia. No ano passado um amigo de profissão perguntou se ele gostaria de ir junto ao que Tilu prontamente se assustou dizendo que o burro não aguentaria uma viagem daquelas. O amigo riu dizendo que o burro ficaria, eles iriam de carro. Tilu pensou que nos seis anos que trabalhava em parceria com Mitoteo, jamais o havia deixado quatro dias abandonado. Como não queria correr o risco de perder o burro por algum incidente ou até mesmo um roubo, sim pois em De Freitas se rouba qualquer coisa, Tilu negara o convite para o carnaval.
Acabava imaginando toda aquela festa apenas a partir dos causos que lhe contavam na semana após a quarta de cinzas. Bebedeiras, ressacas, trepadas na areia no final da noite quando a praia estava deserta de gente moderada, mais ressacas, som alto, trios elétricos, cerveja cara, fedozão de urina nas ruas e o resultado de imaginar tudo isso era a de um mosaico bastante confuso. O parecer final de suas imaginações, contudo, costumava ser positivo. Alguma coisa boa ou felicidade, mesmo que pequena, ali naquilo tudo tinha. Não era possível tanto esforço e tanta gente indo só pela experiência de poder cheirar xixi ou passar um dia revirando o estômago. Isso tudo poderia se fazer em casa ou na festa da cidade que acontecia em maio. Por que ir tão longe? A ideia de algo positivo, ainda que oculto, sempre se renovava quando via aquela longa fila de carros - sentimento que se renovava naquela tarde. Tilu por fim chegou às seis na pizzaria indo sempre pelas faixas laterais. Era impossível ir pela avenida principal - que costumava ter um asfalto melhor.
A pizzaria abriria às sete. Tilu entregou as lenhas, algo em torno de oitenta tocos e recebeu do gerente o pagamento. Dessa vez, o gerente pediu para que ele aguardasse um pouco. Tilu ficou ali na calçada - com Mitoteo - observando o movimento de carros que não cessava. Em sentido contrário, quase ninguém passava. Em meio a um peteleco e outro na orelha do burro, comentou com o animal que eles poderiam até voltar pela via principal. O movimento era apenas para um sentido e seria sem risco, porque não havia ultrapassagem. Os pardais não deixavam. Pardais para quem não sabe, não era o pássaro que rivalizava com os urubus pelo controle do espaço aéreo, mas sim os radares instalados na beira da estrada. Nisso tudo acontecendo, volta o gerente chamando Tilu. Tinha nas mãos uma pizza média, ainda quente, que o gerente queria dar como presente ao carroceiro por ele ter assumido as entregas tão rápido. Uma oferta da casa. A pizza cheirava bem. O burrinho mesmo chegou a dar um trote ou dois de alegria depois de sentir o cheiro. Tilu pediu uma sacola para embalar o presente comestível e poder levar no piso da carroça sem risco de abrir a embalagem de papel. Suas duas mãos estariam ocupadas no volante, diga-se, controle das rédeas, e não poderia transportar no colo. Agradeceu ao gerente, feliz por ter recebido algo de graça, e tomou o caminho de volta. Quanto custaria uma pizza daquela? Uns dois ou três fretes? Tilu calculava e pensava. Mas não ao mesmo tempo, em separado.
Chegou no Ulisses Guimarães umas oito e meia. Por causa da pizza, não quis vir a galope e decidiu novamente pela faixa lateral. O bairro estava menos iluminado do que de costume. Muita gente deveria ter viajado. Mesmo na sua rua viu apenas três casas com luzes acesas. Um poste, situado no terreno baldio, no entanto, permitiu ver todo o pós-festa dos urubus. Sacolas e mais sacolas rasgadas. Lixo esparramado até na frente de sua casa. Para os urubus não basta rasgar a sacola e fazer a refeição no mesmo ponto. Alguns saem arrastando os detritos pela rua. Mesmo quando desceu da carroça para retirar as cordas do burrinho, acabou por pisar numa imundície qualquer. Uma sensação horrível de alguma coisa mole e pegajosa entre a sola dos pés e as chinelas. "Imundos" disse ao burrinho - ou falava dos vizinhos ou até mesmo daqueles urubus. Não via nenhum por ali. "Onde os urubus dormem? Será que eles empoleiram feito as galinhas?" era o que pensava. Iria atrás de algum para satisfação? Agora era o burrinho e o dono zangados com aqueles bichos. Amarrou o burro no toco, voltou com um balde de água, o bicho bebeu e depois dormiu. Tilu voltou à casa, e em todo esse processo, foi dormir com a sensação de que esquecera de algo. Sensação que aumentou quando ele comeu um pão dormido que estava sobre a mesa antes de ir deitar.
Domingo de manhã. Tilu acorda a umas nove horas com batidas na porta. "Testemunhas? Mas eita...esse povo não foi pra praia?" pensou. Não era. Uma sensação de alívio ao abrir a porta e ver que era Julinho, um garoto vizinho duas casas depois da sua. Estava passando de bicicleta para ir à represa e decidiu chamar Tilu para lhe avisar. Uma espécie de reunião das aves. Pouseados sobre as bordas da carroça uns sete urubus. "A pizza! puta que pariu, a pizza" disse ao menino. Julinho sem entender o que Tilu dizia perguntou sobre que pizza. Respondeu que havia ganhado uma pizza mas esqueceu dentro da carroça. Correu até a mesma não antes de pegar uma pedra e atirar nos urubus. Mitoteo estava acordado e observou tudo sem poder fazer nada. Sua corda era curta e não poderia chegar até a carroça. Os sete urubus voaram e pousaram em outros lugares. A caixa, embalada, toda rasgada. Ninguém havia visto. E quem viu, Mitoteo, nada fez. Tilu agradeceu Julinho pelo aviso, apesar de tarde demais. O garoto foi embora e Tilu ficou ali observando ao redor. No mesmo poste, pousado em seu topo, um único urubu segurando no bico um pedaço do papel da embalagem da pizza. Demonstrava um olhar de escárnio, de superioridade, talvez porque estava realmente no alto, como se dissesse de lá "a pizza estava boa - estou comendo até o papel".
Mitoteo entendeu o recado. Apenas relinchou como se também dissesse "Miserável, comendo papel, se fosse bode acabaria na panela".
Mitoteo, ao contrário de Tilu, não pôde dormir, nem descansar. Primeiro que Tilu acabou deixando o burrinho atrelado à carroça, segundo que no terreno baldio alguns vizinhos, provavelmente, antes de viajarem deixaram algumas sacolas de lixo. Como os urubus parecem saber do cronograma de coleta melhor até do que os funcionários responsáveis da prefeitura nessa área, um bando daquelas aves já estavam fazendo uma varredura no local. O caminhão que só passaria na segunda, talvez passaria apenas na quarta. Quatro dias de lixo abandonado. Quatro dias disponíveis para os urubus revirarem aquele patrimônio público de imundície. O lixo estava no mesmo terreno que Mitoteo estava parado. Dali ele só ficou arreparando dois ou três urubus começarem a bicar os sacos. Mitoteo não tinha simpatia por aquele bicho. Ele lembrava vagamente que quando ia dormir com alguma ferida do dia provocada pelos mastros da carroça que tocavam no seu couro, volta e meia era acordado na manhã por algum urubu no lombo. A única defesa era se sacolejar dado que acertar um coice num alvo móvel era tarefa bem mais difícil. Assim passou a tarde de carnaval cercado de lixo e urubus. Pensou, na sua intelejumência, se os burros e afins que vivem no litoral teriam vida mais tranquila no carnaval. Nunca pôde saber porque jamais relinchara com algum burrinho litorâneo.
Tilu então acordou às quatro para realizar sua entrega. A pizzaria ficava quase na outra extrema da cidade. Situava-se na mesma rodovia que ia para o Duque, mas quando acontece de uma rodovia passar dentro da cidade, ela muda de nome e passa a ser considerada avenida. No caso, a avenida Getúlio Vargas. Deve ser outra lei que existe só que agora se aplicando a quase todas as cidades: sempre tem uma avenida chamada Getúlio Vargas. Isto é quase tão certo que há casos, quando alguém está em um lugar estranho e queira mentir sobre um suposto lugar de origem, quando questionado, basta mandar "na bucha" e dizer que reside na avenida Getúlio Vargas. Quando o sujeito que fez a pergunta conhece o suposto lugar e comece porventura a querer saber mais e o conhecimento do mentiroso termine aí, ou seja, a mentira começou a sair do controle, a primeira e única opção é sair o mais rápido da conversa, ou em situação extrema, sair do lugar.
Da casa de Tilu até a pizzaria media-se a distância de sete quilômetros. No caminho Tilu, sua carroça e seu Mitoteo, adentraram no forte fluxo de automóveis indo para a praia. Muitos haviam descido na sexta à noite, outros na manhã de sábado, mas havia quem trabalhasse até o meio-dia e estavam saindo apenas naquela hora. Tilu, com quase trinta anos, jamais passara um carnaval na praia. No ano passado um amigo de profissão perguntou se ele gostaria de ir junto ao que Tilu prontamente se assustou dizendo que o burro não aguentaria uma viagem daquelas. O amigo riu dizendo que o burro ficaria, eles iriam de carro. Tilu pensou que nos seis anos que trabalhava em parceria com Mitoteo, jamais o havia deixado quatro dias abandonado. Como não queria correr o risco de perder o burro por algum incidente ou até mesmo um roubo, sim pois em De Freitas se rouba qualquer coisa, Tilu negara o convite para o carnaval.
Acabava imaginando toda aquela festa apenas a partir dos causos que lhe contavam na semana após a quarta de cinzas. Bebedeiras, ressacas, trepadas na areia no final da noite quando a praia estava deserta de gente moderada, mais ressacas, som alto, trios elétricos, cerveja cara, fedozão de urina nas ruas e o resultado de imaginar tudo isso era a de um mosaico bastante confuso. O parecer final de suas imaginações, contudo, costumava ser positivo. Alguma coisa boa ou felicidade, mesmo que pequena, ali naquilo tudo tinha. Não era possível tanto esforço e tanta gente indo só pela experiência de poder cheirar xixi ou passar um dia revirando o estômago. Isso tudo poderia se fazer em casa ou na festa da cidade que acontecia em maio. Por que ir tão longe? A ideia de algo positivo, ainda que oculto, sempre se renovava quando via aquela longa fila de carros - sentimento que se renovava naquela tarde. Tilu por fim chegou às seis na pizzaria indo sempre pelas faixas laterais. Era impossível ir pela avenida principal - que costumava ter um asfalto melhor.
A pizzaria abriria às sete. Tilu entregou as lenhas, algo em torno de oitenta tocos e recebeu do gerente o pagamento. Dessa vez, o gerente pediu para que ele aguardasse um pouco. Tilu ficou ali na calçada - com Mitoteo - observando o movimento de carros que não cessava. Em sentido contrário, quase ninguém passava. Em meio a um peteleco e outro na orelha do burro, comentou com o animal que eles poderiam até voltar pela via principal. O movimento era apenas para um sentido e seria sem risco, porque não havia ultrapassagem. Os pardais não deixavam. Pardais para quem não sabe, não era o pássaro que rivalizava com os urubus pelo controle do espaço aéreo, mas sim os radares instalados na beira da estrada. Nisso tudo acontecendo, volta o gerente chamando Tilu. Tinha nas mãos uma pizza média, ainda quente, que o gerente queria dar como presente ao carroceiro por ele ter assumido as entregas tão rápido. Uma oferta da casa. A pizza cheirava bem. O burrinho mesmo chegou a dar um trote ou dois de alegria depois de sentir o cheiro. Tilu pediu uma sacola para embalar o presente comestível e poder levar no piso da carroça sem risco de abrir a embalagem de papel. Suas duas mãos estariam ocupadas no volante, diga-se, controle das rédeas, e não poderia transportar no colo. Agradeceu ao gerente, feliz por ter recebido algo de graça, e tomou o caminho de volta. Quanto custaria uma pizza daquela? Uns dois ou três fretes? Tilu calculava e pensava. Mas não ao mesmo tempo, em separado.
Chegou no Ulisses Guimarães umas oito e meia. Por causa da pizza, não quis vir a galope e decidiu novamente pela faixa lateral. O bairro estava menos iluminado do que de costume. Muita gente deveria ter viajado. Mesmo na sua rua viu apenas três casas com luzes acesas. Um poste, situado no terreno baldio, no entanto, permitiu ver todo o pós-festa dos urubus. Sacolas e mais sacolas rasgadas. Lixo esparramado até na frente de sua casa. Para os urubus não basta rasgar a sacola e fazer a refeição no mesmo ponto. Alguns saem arrastando os detritos pela rua. Mesmo quando desceu da carroça para retirar as cordas do burrinho, acabou por pisar numa imundície qualquer. Uma sensação horrível de alguma coisa mole e pegajosa entre a sola dos pés e as chinelas. "Imundos" disse ao burrinho - ou falava dos vizinhos ou até mesmo daqueles urubus. Não via nenhum por ali. "Onde os urubus dormem? Será que eles empoleiram feito as galinhas?" era o que pensava. Iria atrás de algum para satisfação? Agora era o burrinho e o dono zangados com aqueles bichos. Amarrou o burro no toco, voltou com um balde de água, o bicho bebeu e depois dormiu. Tilu voltou à casa, e em todo esse processo, foi dormir com a sensação de que esquecera de algo. Sensação que aumentou quando ele comeu um pão dormido que estava sobre a mesa antes de ir deitar.
Domingo de manhã. Tilu acorda a umas nove horas com batidas na porta. "Testemunhas? Mas eita...esse povo não foi pra praia?" pensou. Não era. Uma sensação de alívio ao abrir a porta e ver que era Julinho, um garoto vizinho duas casas depois da sua. Estava passando de bicicleta para ir à represa e decidiu chamar Tilu para lhe avisar. Uma espécie de reunião das aves. Pouseados sobre as bordas da carroça uns sete urubus. "A pizza! puta que pariu, a pizza" disse ao menino. Julinho sem entender o que Tilu dizia perguntou sobre que pizza. Respondeu que havia ganhado uma pizza mas esqueceu dentro da carroça. Correu até a mesma não antes de pegar uma pedra e atirar nos urubus. Mitoteo estava acordado e observou tudo sem poder fazer nada. Sua corda era curta e não poderia chegar até a carroça. Os sete urubus voaram e pousaram em outros lugares. A caixa, embalada, toda rasgada. Ninguém havia visto. E quem viu, Mitoteo, nada fez. Tilu agradeceu Julinho pelo aviso, apesar de tarde demais. O garoto foi embora e Tilu ficou ali observando ao redor. No mesmo poste, pousado em seu topo, um único urubu segurando no bico um pedaço do papel da embalagem da pizza. Demonstrava um olhar de escárnio, de superioridade, talvez porque estava realmente no alto, como se dissesse de lá "a pizza estava boa - estou comendo até o papel".
Mitoteo entendeu o recado. Apenas relinchou como se também dissesse "Miserável, comendo papel, se fosse bode acabaria na panela".
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