domingo, 11 de fevereiro de 2018

IV - Três dias fora

Alguma casa na rua Sagrada Família, bairro Bela Vista, De Freitas. Domingo, 15:45

- Filho? Então não vai mesmo?
- Sem problemas, pai. Preciso aproveitar esse silêncio. Já que todos viajaram, posso adiantar minhas leituras e descansar da última semana. O trabalho foi puxado.
- Bem, eu e sua mãe não iríamos sair nesse carnaval. Mas seu avô acabou levando sua tia para o Prado. Tem muita gente lá, pelo que ele me disse. Deve estar uma bagunça...se quiser a gente vem aqui e te pega na terça, ao menos até quarta..
- Não, pai..tudo bem, tem aquela consulta no médico que é na quinta, prefiro mesmo repousar. Pode ir tranquilo. Estou bem. Vou até puxar a rede ali na varanda e ficar curtindo um estalo de um galho caindo, alguém passeando...
- Feche a casa, então...semana retrasada arrombaram a casa de Júlio, gerente daquela loja no centro, arregaçaram o som do carro...não tinha ninguém na hora
- Fiquei sabendo, mas é bom ficar alguém que assim evita de chamar a atenção de bandido, ligarei a tv, um som de vez em quando...como disse, pode ir tranquilo, vou chefiar o Bela Vista...
- ah vai...(risos)
- e o lixo, ponho na rua? o caminhão só deve passar na quinta não é?
- provavelmente, até o prefeito deve estar em alguma praia afundado com aquela cara de jabba no whisky falso...
- o jabba the hutt? verdade, parece mesmo, nunca tinha me tocado pra isso...(risos)
- ok, sua mãe está lá no carro aguardando, qualquer coisa você me liga se mudar de ideia, ou eu aviso se tiver alguma novidade.
- certo, boa viagem pra vocês! até mais capitão! 

Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 17:00. Recebida às 17:50.

"Filho, chegamos agora. Atrasamos um pouco porque havia alguns carros na estrada. Pensei que quem tivesse de viajar, já o teria feito. Vamos descansar, talvez saiamos mais tarde para ver o movimento. O Prado está meio vazio. Poucos turistas. Está até tranquilo. Ah, seu avô manda abraço e disse para você não levar nenhuma prostituta pra casa"

Alguma rua próxima ao trevo, De Freitas, mensagem enviada de celular para o pai às 18:25. Recebida às 19:05

"Fala com vô que passei em frente do Stop há alguns minutos. Que véi safado! Vim fazer uma caminhada. Estou voltando. A cidade parece o velho oeste. Vi um grupelho de cinco rapazes passando de bicicleta perto do estádio. Suspeitos, muito suspeitos. Não vi nenhum carro da PM. Será que todos os militares fizeram como você e deram o fora pra praia? rsrs"

Centro do Prado, mensagem enviada de celular para o filho às 19:10. Recebida às 20:00

"Certo, fica de olho. Você tem o número lá da guarnição. Se precisar de apoio, liga pro cabo Gertrudes que ele dá um help. Sinal está ruim aqui. Até."

Padaria no centro de De Freitas, mensagem enviada de filho para pai às 20:40. Recebida na segunda às 10:40.

"Relaxa, aproveita aí. Vim de bicicleta até a padaria para comer um lanche. Ainda bem que não estava fechada. Vi dois rapazes andando de bicicleta aqui por perto. Mas já sumiram. Amanhã dou notícia. Boa farra pra todos! Abraço, pai!"

Alguma casa na rua Sagrada Família, bairro Bela Vista; De Freitas. Domingo, 21:20

Barulho de vídeo game relativamente alto chama a atenção na rua. Um vizinho toca na campainha perguntando se está tudo bem. Jovem de 19 anos aparece afirmando que sim e explica que é um jogo de tiro. 

21:25
O volume do som fica um pouco mais baixo.

22:00
Dois rapazes de bicicleta passam pela rua e param em frente a uma determinada casa. Um desce da magrela enquanto o outro fica segurando. Movimento zero nas redondezas. Rapaz pula muro. 

22:10
Jovem de 19 anos, o que jogava vídeo game, destrava a porta pensando que novamente o haviam chamado. Escuta-se sons, aparentemente, de briga.

22:20
Rapaz que havia pulado o muro, joga uma mochila para o outro que havia ficado na rua. Ele apanha. E avisa para o que o invasor seja mais rápido.

22:21
Ouve-se o que parece ser um tiro de arma calibre 38. O vizinho não se preocupa. Sabe que se trata do jovem distraindo-se com jogos violentos. 

00:00
O domingo de carnaval acaba. Há mais de uma hora a casa do rapaz está em completo silêncio.

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