sábado, 10 de fevereiro de 2018

II - O caso do vil urubu que ninguém viu


Na sexta-feira à tarde Tilu tinha recebido a ligação do gerente da pizzaria de forno à lenha confirmando que o ponto abriria no sábado de carnaval. No mesmo instante Tilu pegou o telefone e ligou para o Zé Joaquim no Duque de Caxias perguntando se poderia ir sábado bem cedo apanhar as lenhas. Tudo resolvido, decidiu que dormiria meia hora mais cedo que o normal para acordar meia hora mais cedo que costumava acordar, ou seja, se tinha por hábito despertar sempre às cinco, na manhã de sábado o faria às quatro e meia. Quando deu oito da noite foi ao terreno baldio que havia na frente de sua casa para confirmar que o burrinho Mitoteo estava bem amarrado. Confirmou também a carroça com a corrente passada entre as rodas e os eixos. Apesar de ser conhecido em todo o Ulisses Guimarães, o que para ele gerava uma falsa garantia de não ser alvo dos bandidos do bairro, de uns meses pra cá muitos larápios estavam vindo, como Tilu dizia, do estrangeiro pra bulinar nas casas do pessoal. Antes de voltar à sua casa, deu um puxãozinho de orelha em Mitoteo e foi dormir. Esse puxão sempre significava algo como "ei, burrinho, gente boa!" ou quem sabe "ei, burrinho, to aqui!"

A ideia de sair mais cedo para o Duque pegar os tocos de lenha era voltar antes das dez e dar tempo de ir no Mercadão Municipal. Como morava sozinho, sua família continuava morando em Rancho Alegre, uma mãe e uma irmã, Tilu queria comprar algumas verduras para cozinhar e frutas pois era certo que muitos comércios e vendinhas ficariam fechadas durante o carnaval. Sua principal atividade era pegar alguns fretes aleatórios, mudanças, móveis velhos e outras bagulhadas no geral e, de dois meses pra cá, havia conseguido o lugar do antigo carroceiro que entregava lenha na pizzaria. A coisa se passou assim: Seu Gegê, na faixa de uns 60 anos, morava no mesmo bairro e desde que começou a sentir algumas dores no tórax, havia pedido Tilu, para entregar lenha no seu lugar. Foi como ele ficou conhecendo o gerente da pizzaria e acabou pegando contato com ele e alguns funcionários. Seu Gegê, numa quinta qualquer, acordou sentindo uma dor muito mais forte no peito. Sua esposa, Dona Gogó, chamou o SAMU que não apareceu porque a equipe da ambulância era nova e se perdeu - o motorista confundiu os nomes dos políticos e foi parar no Tancredo Neves, Tancredão, e não no Ulisses. O jeito foi levá-lo ao UPA na carroça depois de avisarem Tilu que morava duas ruas depois e que, por sorte, estava saindo para um frete. Juntou a dor no peito com a trepidação do veículo de tração animal e Seu Gegê chegou morto antes mesmo de dar entrada no ambulatório. 

Na missa de sétimo dia, um funcionário da pizzaria encontrou com Tilu e pediu para que ele aparecesse por lá porque o gerente ficou sabendo de todo o ocorrido com Seu Gegê e precisava de um substituto. A lenha tinha acabado e os clientes começaram a reclamar demais da pizza assada no forninho elétrico adaptado. Muitos queriam desconto de 10% e todas aquelas outras picuinhas como denunciar no Procon, outros diziam denunciar até no Detran - ou por zombaria ou ignorância apenas. Ninguém sabia direito o que falava. Os clientes adoravam uma pizza e gostavam muito mais de chorar no preço, mas se tinha algo que os clientes De Freitas gostavam mais do que tudo isso, era arrumar confusão quando aparecia a oportunidade. Foi nessa situação que Tilu havia assumido, portanto, o lugar do ex-entregador.

Voltando ao sábado de manhã, deu certo o plano traçado no dia anterior. A serração na rodovia BR-290 que ligava De Freitas ao agora bairro Duque de Caxias - antes era tão distante que se dizia distrito mas a cidade cresceu e quase que juntou tudo - estava forte. Tilu com Mitoteo foram bem devagar e chegaram umas seis e meia por lá. Apanharam as lenhas e às dez já estavam de volta. Pediu à Dona Gogó, agora viúva Gogó, se poderia passar o olho por uma horinha na carroça e a deixou amarrada em frente a um terreno baldio que também existia na frente da casa de Seu Gegê, agora finado Gegê. É de se notar que sempre tem um terreno baldio na frente ou ao lado da casa de um carroceiro. É uma lei real que existe nas cidades que se tem carroceiro. Olha lá se não for o terreno que faz a profissão. No dia que ocuparem todos os lotes vazios, a profissão de carroceiro desaparece. Tilu voltou da feira, apanhou a carroça e Mitoteo, e como o sábado só havia ficado para aquela entrega, decidiu que dormiria à tarde por causa do cansaço da ida ao Duque de manhã - sempre cansativo - e umas quatro e meia sairia de casa. 

Mitoteo, ao contrário de Tilu, não pôde dormir, nem descansar. Primeiro que Tilu acabou deixando o burrinho atrelado à carroça, segundo que no terreno baldio alguns vizinhos, provavelmente, antes de viajarem deixaram algumas sacolas de lixo. Como os urubus parecem saber do cronograma de coleta melhor até do que os funcionários responsáveis da prefeitura nessa área, um bando daquelas aves já estavam fazendo uma varredura no local. O caminhão que só passaria na segunda, talvez passaria apenas na quarta. Quatro dias de lixo abandonado. Quatro dias disponíveis para os urubus revirarem aquele patrimônio público de imundície. O lixo estava no mesmo terreno que Mitoteo estava parado. Dali ele só ficou arreparando dois ou três urubus começarem a bicar os sacos. Mitoteo não tinha simpatia por aquele bicho. Ele lembrava vagamente que quando ia dormir com alguma ferida do dia provocada pelos mastros da carroça que tocavam no seu couro, volta e meia era acordado na manhã por algum urubu no lombo. A única defesa era se sacolejar dado que acertar um coice num alvo móvel era tarefa bem mais difícil. Assim passou a tarde de carnaval cercado de lixo e urubus. Pensou, na sua intelejumência, se os burros e afins que vivem no litoral teriam vida mais tranquila no carnaval. Nunca pôde saber porque jamais relinchara com algum burrinho litorâneo. 

Tilu então acordou às quatro para realizar sua entrega. A pizzaria ficava quase na outra extrema da cidade. Situava-se na mesma rodovia que ia para o Duque, mas quando acontece de uma rodovia passar dentro da cidade, ela muda de nome e passa a ser considerada avenida. No caso, a avenida Getúlio Vargas. Deve ser outra lei que existe só que agora se aplicando a quase todas as cidades: sempre tem uma avenida chamada Getúlio Vargas. Isto é quase tão certo que há casos, quando alguém está em um lugar estranho e queira mentir sobre um suposto lugar de origem, quando questionado, basta mandar "na bucha" e dizer que reside na avenida Getúlio Vargas. Quando o sujeito que fez a pergunta conhece o suposto lugar e comece porventura a querer saber mais e o conhecimento do mentiroso termine aí, ou seja, a mentira começou a sair do controle, a primeira e única opção é sair o mais rápido da conversa, ou em situação extrema, sair do lugar.  

Da casa de Tilu até a pizzaria media-se a distância de sete quilômetros. No caminho Tilu, sua carroça e seu Mitoteo, adentraram no forte fluxo de automóveis indo para a praia. Muitos haviam descido na sexta à noite, outros na manhã de sábado, mas havia quem trabalhasse até o meio-dia e estavam saindo apenas naquela hora. Tilu, com quase trinta anos, jamais passara um carnaval na praia. No ano passado um amigo de profissão perguntou se ele gostaria de ir junto ao que Tilu prontamente se assustou dizendo que o burro não aguentaria uma viagem daquelas. O amigo riu dizendo que o burro ficaria, eles iriam de carro. Tilu pensou que nos seis anos que trabalhava em parceria com Mitoteo, jamais o havia deixado quatro dias abandonado. Como não queria correr o risco de perder o burro por algum incidente ou até mesmo um roubo, sim pois em De Freitas se rouba qualquer coisa, Tilu negara o convite para o carnaval.

Acabava imaginando toda aquela festa apenas a partir dos causos que lhe contavam na semana após a quarta de cinzas. Bebedeiras, ressacas, trepadas na areia no final da noite quando a praia estava deserta de gente moderada, mais ressacas, som alto, trios elétricos, cerveja cara, fedozão de urina nas ruas e o resultado de imaginar tudo isso era a de um mosaico bastante confuso. O parecer final de suas imaginações, contudo, costumava ser positivo. Alguma coisa boa ou felicidade, mesmo que pequena, ali naquilo tudo tinha. Não era possível tanto esforço e tanta gente indo só pela experiência de poder cheirar xixi ou passar um dia revirando o estômago. Isso tudo poderia se fazer em casa ou na festa da cidade que acontecia em maio. Por que ir tão longe? A ideia de algo positivo, ainda que oculto, sempre se renovava quando via aquela longa fila de carros - sentimento que se renovava naquela tarde. Tilu por fim chegou às seis na pizzaria indo sempre pelas faixas laterais. Era impossível ir pela avenida principal - que costumava ter um asfalto melhor. 

A pizzaria abriria às sete. Tilu entregou as lenhas, algo em torno de oitenta tocos e recebeu do gerente o pagamento. Dessa vez, o gerente pediu para que ele aguardasse um pouco. Tilu ficou ali na calçada - com Mitoteo - observando o movimento de carros que não cessava. Em sentido contrário, quase ninguém passava. Em meio a um peteleco e outro na orelha do burro, comentou com o animal que eles poderiam até voltar pela via principal. O movimento era apenas para um sentido e seria sem risco, porque não havia ultrapassagem. Os pardais não deixavam. Pardais para quem não sabe, não era o pássaro que rivalizava com os urubus pelo controle do espaço aéreo, mas sim os radares instalados na beira da estrada. Nisso tudo acontecendo, volta o gerente chamando Tilu. Tinha nas mãos uma pizza média, ainda quente, que o gerente queria dar como presente ao carroceiro por ele ter assumido as entregas tão rápido. Uma oferta da casa. A pizza cheirava bem. O burrinho mesmo chegou a dar um trote ou dois de alegria depois de sentir o cheiro. Tilu pediu uma sacola para embalar o presente comestível e poder levar no piso da carroça sem risco de abrir a embalagem de papel. Suas duas mãos estariam ocupadas no volante, diga-se, controle das rédeas, e não poderia transportar no colo. Agradeceu ao gerente, feliz por ter recebido algo de graça, e tomou o caminho de volta. Quanto custaria uma pizza daquela? Uns dois ou três fretes? Tilu calculava e pensava. Mas não ao mesmo tempo, em separado.

Chegou no Ulisses Guimarães umas oito e meia. Por causa da pizza, não quis vir a galope e decidiu novamente pela faixa lateral. O bairro estava menos iluminado do que de costume. Muita gente deveria ter viajado. Mesmo na sua rua viu apenas três casas com luzes acesas. Um poste, situado no terreno baldio, no entanto, permitiu ver todo o pós-festa dos urubus. Sacolas e mais sacolas rasgadas. Lixo esparramado até na frente de sua casa. Para os urubus não basta rasgar a sacola e fazer a refeição no mesmo ponto. Alguns saem arrastando os detritos pela rua. Mesmo quando desceu da carroça para retirar as cordas do burrinho, acabou por pisar numa imundície qualquer. Uma sensação horrível de alguma coisa mole e pegajosa entre a sola dos pés e as chinelas. "Imundos" disse ao burrinho - ou falava dos vizinhos ou até mesmo daqueles urubus. Não via nenhum por ali. "Onde os urubus dormem? Será que eles empoleiram feito as galinhas?" era o que pensava. Iria atrás de algum para satisfação? Agora era o burrinho e o dono zangados com aqueles bichos. Amarrou o burro no toco, voltou com um balde de água, o bicho bebeu e depois dormiu. Tilu voltou à casa, e em todo esse processo, foi dormir com a sensação de que esquecera de algo. Sensação que aumentou quando ele comeu um pão dormido que estava sobre a mesa antes de ir deitar.

Domingo de manhã. Tilu acorda a umas nove horas com batidas na porta. "Testemunhas? Mas eita...esse povo não foi pra praia?" pensou. Não era. Uma sensação de alívio ao abrir a porta e ver que era Julinho, um garoto vizinho duas casas depois da sua. Estava passando de bicicleta para ir à represa e decidiu chamar Tilu para lhe avisar. Uma espécie de reunião das aves. Pouseados sobre as bordas da carroça uns sete urubus. "A pizza! puta que pariu, a pizza" disse ao menino. Julinho sem entender o que Tilu dizia perguntou sobre que pizza. Respondeu que havia ganhado uma pizza mas esqueceu dentro da carroça. Correu até a mesma não antes de pegar uma pedra e atirar nos urubus. Mitoteo estava acordado e observou tudo sem poder fazer nada. Sua corda era curta e não poderia chegar até a carroça. Os sete urubus voaram e pousaram em outros lugares. A caixa, embalada, toda rasgada. Ninguém havia visto. E quem viu, Mitoteo, nada fez. Tilu agradeceu Julinho pelo aviso, apesar de tarde demais. O garoto foi embora e Tilu ficou ali observando ao redor. No mesmo poste, pousado em seu topo, um único urubu segurando no bico um pedaço do papel da embalagem da pizza. Demonstrava um olhar de escárnio, de superioridade, talvez porque estava realmente no alto, como se dissesse de lá "a pizza estava boa - estou comendo até o papel". 

Mitoteo entendeu o recado. Apenas relinchou como se também dissesse "Miserável, comendo papel, se fosse bode acabaria na panela". 

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