V - Deslizes
Ele deslizou o dedo distraidamente no botão errado
daquele aplicativo que promovia encontros aleatórios. A ideia era aplicar uma
espécie de “gostei” comum mas acabou queimando o único “super gostei” que ele
tinha disponível na versão não-paga do programa. Não que necessariamente fosse
um estrago irreversível. Ele diria sim a ela, mas não um super sim. Usava sem
acreditar que aquilo fosse render alguma coisa. A configuração que
estabelecera, os parâmetros, abria o espectro de perfis, de mulheres, presentes
em toda a região desde São Mateus no longínquo Espírito Santo até Porto Seguro
ainda no sul da Bahia. Claro que, sem carro, não iria a canto nenhum. E mesmo
se fosse de ônibus, em pleno período de carnaval? Nem pensar. Mas foi calhar
daquele “super gostei” cair em um perfil de uma mulher, 27 anos, uma única foto
que mostrava um rosto de lábios levemente carnudos, um olhar que parecia ser
castanho, um cabelo preto e curto até a altura do ombro, levemente
encaracolado, sua cabeça estava ligeiramente pendente para o lado esquerdo,
enfim, ela era de uma beleza discreta, e mais, ela estava a apenas 15
quilômetros de distância, ou seja, na mesma cidade, em De Freitas.
Ela estava deitada no sofá, quase deslizando da
napa de couro até a ardósia do piso, com um sono irregular, quando um toque no
celular informava uma notificação. Era quase dez da noite, de um domingo de
carnaval o qual ela se decidiu por ficar em casa. Sua amiga do trabalho, amiga
de farra, quis a levar para Caravelas, mas declinou de imediato. Optou por
passar os quatro dias em casa dormindo, e quando acordada, vendo filmes que há
muito estavam no hd externo – todos oriundos de torrent, produto ilegal, mas
que executivo, ela pensou na época quando fazia os downloads, da indústria do
cinema viria até De Freitas fazer uma intimação? Ninguém. Aquela notificação no
celular? Seria a de uma intimação judicial internacional? Nada. Pegou
distraidamente o celular e notou de pronto que era mais uma notificação de
combinação mútua com algum rapaz. Só que, dessa vez, ela recebia pela primeira
vez, desde que instalara o aplicativo há uns dois meses, um “super gostei”.
“Bem”, ele pensou “agora não vou incluir mais fotos
não, vai ficar essa do barzinho e essa com meus primos lá em Medeiros Neto”.
Questão era, muito mais do que as fotos que se apresentavam no perfil, como
explicar por aquela escolha. Realmente ter dado o “super gostei” o intimidava
um pouco. Pensou em desfazer a combinação, mas se ela já havia visto e estava
pronta a apertar o botão de volta? Se passar por um covarde? Foi uma ideia.
Decidiu pelo “deixa acontecer pra ver”.
Ela ficou curiosa. Se o objetivo dele era chamar a
atenção foi exitoso. Mesmo que fosse um sujeito de três anos mais moço, coisa
que não apreciava, mesmo com a cara de um autônomo de informática que trabalha
sem saber se fechará as contas do mesmo, coisa que também não apreciava,
possuidor de uma barba mal feita e que podia ser notada de forma bem distinta
ainda que nessa foto ele estivesse sentado em um boteco daqueles bem esculhambados
no Nova América, coisa que ela jamais apreciaria, e na outra foto, um pouco
mais comportado, sentado em meio a umas cinco pessoas de diferentes idades,
talvez familiares, no que parecia ser uma casa situada em alguma dessas
cidadezinhas próximas de De Freitas, coisa que agora ela apreciaria um pouco,
“não é de todo louco” tem um jeito de considerar a família – mesmo que isto não
significasse de forma alguma garantia de idoneidade. Pesando o sim e o não, o
talvez e o possível, o muito e o pouco e o mais ou menos, ela confirmou.
Apertou o botão de volta como se dissesse “aceito” mas não deixava de ter no
fundo curiosidade porque ele havia encontrado nela algo para que chamasse
atenção suficiente para ganhar um “super gostei”. Ela, sem nem perceber, talvez
estivesse mais preocupada em saber sobre aquele motivo de ser merecedora de tal
crédito do que propriamente interesse nele. Era mais questão de dúvida do que
de afeto.
Ele, pasmado. Ela aceitou e puxou
conversa no mesmo momento. Aquelas passadas de dedo dele na tela do celular sem
compromisso algum havia se transformado em uma situação incontornável. O jeito
era responder e foi o que ele fez. As estórias, disse alguém, não são contadas
mas se contam. Muitas estórias de encontros podem seguir pelo mesmo caminho. Os
diálogos não são tão bem preparados, vão sem rota e objetivo e durante o
próprio percurso encontram um destino, ou ao menos, uma hospedagem para uma
noite ou duas. Madrugada. Para não dormir, ele liga a televisão enquanto passa
os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro da Série A. Ele nem sabia,
apesar de envolvido na conversa, que no samba também tem divisão e que, tal
qual um clube de futebol, se alguém for ruim demais, é rebaixado a uma série
inferior. Isso não fora citado à toa. Ele escreveu isso na conversa. Ela, que
não dava a mínima para futebol, ficou sem entender menos ainda a questão das
divisões. Os assuntos se multiplicam sem rumo algum - importante é que eles
tenham assuntos. Até que, quase perto de ficar perto da manhã, uma ideia vinda
dele, que até então nenhum dos dois cogitavam, é posta em discussão: por que
não se encontrar na terça de carnaval? compromisso de algum dos dois? Não? Que
tal o shopping do centro? Às moscas. A cidade abandonada. Ela pensa e fala que
responderá até meio dia. Ele não se importa. Diz que até esse horário será
possível combinar qualquer coisa, afinal, quando o dia está branco, qualquer
risco sobre ele é um sinal - dá-lhe significado. Para ele, era mais questão de
matar o tempo do que cultivar um sentimento.
Ela acorda. O dia, terça de carnaval, levantara-se quatro ou cinco horas antes. Enquanto prepara o café, pega o celular e começa a rever as fotos. Duas apenas. Vai até a conversa. As conversas. São duas. Na primeira, mais simples, reclamações sobre o chat do programa não funcionar muito bem. É instável. Trocam os números e vão, ou vem, para um aplicativo próprio de conversas. Ela relê atentamente. Em nenhum ponto ele explicara qual motivo ou o quê o levou a meter um "super gostei" no perfil dela. Nem por isso desiste. É por causa disso que enquanto tomando o café chega à conclusão que há uma segunda chance. O encontro da tarde. Eles vão andar por aí. No shopping. Tem alguns banquinhos. Lá sim ela poderia colocá-lo, senão contra a parede, contra o encosto de cimento. Tudo isso por causa de um "super gostei". Qual o propósito disso ela se pergunta e termina cochichando a si de forma que nem ela mesmo conscientemente escute "que caralho de dúvida!". Aproveita que está com o celular na mão e confirma: às quatro na Praça da Bíblia. Ela pega um moto-táxi. Ele também irá assim. Sua moto estava na oficina. Era mais questão de necessidade do que de escolha.
Às 15:30 o sol em De Freitas queimava cada porta de comércio fechado ou aqueles que estavam estranhamente e facultativamente funcionando. Ele, o rapaz e não o sol, pediu para que o moto-táxi o deixasse em frente a farmácia alguns metros antes da praça. Foi meia hora mais cedo porque não saberia como se portar chegando após ela - como se apresentaria. Chegando antes, sentaria em algum lugar fingindo uma pose de quem espera sem expectativas. Estranhou a pastelaria chinesa aberta: "ou os chineses não foram avisados sobre o carnaval ou eles não gostam dessa farra toda". Entrou e tomou um caldo. E depois pegou uma bala de hortelã e foi até à praça. Quando curvou a esquina, às 15:45 viu uma moça em frente ao palanque da praça da Bíblia. Ela havia chegado primeiro.
A última vez que ela havia feito algo do tipo? Um encontro combinado por internet ou celular? Há uns quatro anos. Desastradamente. Um silêncio. Um cinema. Silêncio durante o filme - o que não era necessariamente ruim, e silêncio depois até à meia-noite quando se despediram sem nem mesmo a ameaça de um beijo. Com 27 anos pensava que determinadas situações já deveriam ser lentamente deixadas ao abandono. Namorinho de portão? Na praça? O que a levava ali se não aquela dúvida? Sua auto-estima a movia. É porque a cidade estava quase vazia que se propôs ao método do encontro na pracinha. O risco de ser vista por algum conhecido ou ser zombada ou mesmo "o que vão pensar de mim" diminuía em uma cidade como De Freitas durante o carnaval. Assim, pensou, se a ideia era avaliar tudo desde o mais princípio, ela foi às 15:20 para olhar as portas de cada mercado, fechado ou não, serem queimadas pelo sol. Ela observava tudo debaixo de uma árvore. De uma modesta sombra.
Eles se encontram às 15:46. Misteriosamente tudo se passa de uma forma natural como se já conhecessem. Eles concordam que na praça não tinha condições nenhuma para se ficar. Vão andando e conversando até o shopping. Quase uma repetição das conversas pelo celular com breves variações ou inclusões de tema. Falam de como a cidade ficou vazia, reclamam da quantidade de lixo nas ruas, se o caminhão não iria fazer coleta, explicam por que ficaram em casa sem ânimo para qualquer lugar. Dizem que lugar para ficar não era o problema mas, por outros motivos, desanimaram. Ele queria adiantar os serviços, ela descansar. Tudo normal. Chegaram à praça de alimentação às 16:10. Antes passaram em frente à sala de cinema e viram os filmes em exibição. Todos sem legenda, apenas dublado. Por causa da lembrança do último encontro de anos passados, ela inventou outro motivo e sugeriu beber algo. Ele concordou. Entre o calor da praça de alimentação, aberta, sem ar e o frio da sala de cinema, com ar e sem chopp, a escolha era mais apropriada. A praça estava relativamente vazia. Funcionários demonstravam uma face de que não gostariam de estar ali naquele dia para atender um casalzinho ou outro. E aqueles dois ali? Nem casalzinho mesmo eram - um dos garçons percebeu por causa de um conhecimento adquirido em décadas.
Quando sentados, ainda conversando, em determinado momento, ele deslizou sem cuidado o olhar para a região entre os seios dela. Ela vestia uma camisa de pano leve, um bege fraco, possuía uma gola mais aberta que permitia, se visto de um ângulo apropriado, o contorno interno dos seios. Ele percebeu que ela captou aquele deslize, e fingiu olhar ao lado para não deixá-lo sem graça ao passo que ele também acompanhou-lhe o olhar em retribuição.
Ela aproveitava para investigá-lo, a cada breve olhadela, um detalhe do rosto daquele rapaz, seu porte, seu jeito de falar, isto tudo a permitiu ir formando um conjunto no qual o resultado era "ele não é tão estranho assim, é até bonitinho". Começava a se inquietar, contudo, sobre o mistério do "super gostei". Volta e meia ela pensava em uma forma de conduzir a conversa para o ponto que permitisse lançar fulminantemente a questão. A dúvida. Se fosse possível, o encontro poderia terminar e ela voltaria para casa com o pequeno tesouro resgatado. Só que, de todas as variações do assunto, nenhum permitia que ele se encontrasse em posição indefesa.
Ficaram por ali até às 16:50. O álcool afrouxou-lhes
a suspeição que cada um guardava para o outro. Ainda a bebida mandou embora os
limites de determinados temas, mas tomou-lhes igualmente o juízo para escolher
lugares para passear. O sol começava a parar de queimar tudo e tudo parecia chegar
ao estado final de derretimento naquele feriado. Da praça da Bíblia à praça de
alimentação do shopping à praça da prefeitura. Uma escolha insólita qualquer um
é capaz de saber disso. A praça da prefeitura tem um formato de trapézio retângulo
sendo toda desnivelada. Na parte superior passa a avenida Getúlio Vargas e na
inferior a avenida Marechal Castelo Branco. Antigamente, até o início da década
de 2000, a praça era repleta de trailers de lanches, de barraquinhas, uns botecos.
Era ponto de encontro dos finais de festa. Como o trailer basicamente saiu de
moda, restou a praça sem atrativo algum, com suas árvores supostamente antigas,
com meio fios quebrados, e atualmente, de atração apenas uma barraca de
acarajé. É um lugar que poderia muito bem ser menos insólito do que se tornou.
Ele sugeriu a praça da prefeitura. Ela
devolveu com um olhar de “a praça?” ao mesmo tempo que não tinha nenhum outro
lugar para sugerir. Como era uma praça sem bancos [talvez devêssemos começar a
questionar se vale a pena continuar a chamar aquele lugar de praça], sentaram
ali em uma das bordas dos canteiros. Um ao lado do outro. Agora já passava das
17:30 e o efeito do pôr do sol começava a distribuir tons de laranjada em todas
as nuvens. O sol se punha para o lado de Medeiros Neto. O pôr do sol, ele
elogiou, era uma coisa que costumava realmente encantar na cidade.
É porque, ela interveio, a cidade jamais
teve algo de belo aqui embaixo. As pessoas acabavam olhando para o alto e esse olhar
constante acabou por realçar o efeito do fim de tarde. Com o tempo, ela
explicava, o pôr do sol se tornou o único evento turístico, se tivesse de se
eleger algum dia um, digno de ser apresentado a alguém de fora. Mas, concluía
ela, o evento sendo só uma parte do dia, durante a outra parte do cotidiano
aberta para outras atividades de observação, sem lugar para ir ou visitar, as
pessoas começaram a olhar umas para as outras e, pior, antes fosse para
admirar, mas não, o objetivo era olhar para falar. Falar da vida alheia. Mais
do que trabalho, futricagem – o esporte favorito local.
Ele entendeu e concordou. Principalmente
na parte que ela dizia sobre olhar para os outros porque foi justamente naquele momento que ele acabara por deslizar
novamente o olhar para os seios dela. Ela viu que não haveria momento mais
oportuno, dessa vez, para dar o bote. Ela o fulminou olhando nos olhos dele.
- Você realmente gostou deles né, moço?
- Deles? Deles quem?
- Ora, desde lá do shopping você vem
tentando despistadamente olhar os meus peitos, pode olhar, eles não mordem, é a
boca que faz isso você deve saber, mas talvez você não saiba que é péssimo em
despistar...
- É, é, certo, olhei...
- Mas na minha foto do aplicativo, era
só o rosto, não tinha peito nenhum lá, qual foi o motivo?
- Motivo? Sim, motivo...olha, eu não
sei se conseguiria explicar...
- Você realmente não sabe...talvez
saiba outra coisa...
Sair de casa, beber, andar, conversar.
Que sujeito. Ela saiu enumerando todas aquelas atividades, chegou a conclusão
que aquele pobre desastrado com quase 25 anos, mesmo sob o efeito liberalizador
do álcool, não sairia do lugar, nem daquela praça. Ela pensou que ele seria a
sua diversão de carnaval. Sua folia. Passou-lhe a mão pelo seu pescoço o beijando
depois de ter dito:
- Vamos ver se ao menos beijar sabe...
Ficaram ali se beijando, sentados de
lado. Péssima posição para se beijar, verdade. Contudo, a posição não foi
suficientemente forte para que os dois não permanecessem por ali mais de uma
hora depois do primeiro beijo. Ele percebeu que o certo ou o melhor a se fazer
era se deixar acompanhar pelo que ela haveria de se decidir ou fazer. A noite caía
na praça. O movimento dos carros começava a tomar corpo e volume por causa das
pessoas que trabalhavam na quarta de manhã e retornavam das praias. Ela sabia
que amor de praia não sobe a serra, mas ali não tinha praia nem serra. Tinha o
centro e o São Lourenço onde ela morava. Sua amiga de república só voltaria na
quarta à noite. A casa era dela. Por que não ser também dele por uma noite? Longe
da praia, da serra, poderia ainda dizer que aquilo seria amor?
Eles, os dois, foram para a casa dela.
E transaram duas ou três vezes, ora como conhecidos ora como completos
desconhecidos. Deitaram quase de madrugada. Ele acordou às cinco e meia da
manhã com um som que vinha do fundo da casa. Levantou, caminhou até a cozinha,
abriu a porta e ficou observando um urubu que pousara no quintal e que começou
a revirar as sacolas de lixo. Ela, de sono leve, despertou, com um início de
uma ressaca, e foi no lugar onde ele estava e o encontrou nu encostado no
portal e perguntando o que foi.
- Nada, é um urubu!
A amiga dela não colocou o lixo nas
ruas. Deixou tudo bem amarrado mas ainda assim o urubu foi teimoso o suficiente
para revirar e bicar e estraçalhar todo aquele saco. Ela, sem calcular o efeito de seu gesto, chegou por trás e deu-lhe um abraço. A reação daquele que recebia o abraço foi
deixar que ela deslizasse os braços na região do seu peito enquanto dava-lhe pequenos
beijos em suas costas. Ela por fim desistiu de tentar descobrir o motivo de ele
a ter dado um “super gostei” no aplicativo. Começou a perceber que as pessoas, às vezes, como as estórias que se contam, apenas se gostam. Mesmo que tudo tivesse
em sua origem um descuido, ou um deslize.
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