domingo, 11 de fevereiro de 2018

III - O cão com asas


A primeira palavra que Sabrina tinha aprendido a falar de forma completa, muito antes da palavra mamãe, foi urubu. Ela até começou com "má-má..." como quase toda criança, mas além disso, por causa da sacada do apartamento, no bairro Recanto do Lago, que dava vistas ao Vale dos Mortos, lugar de uma antiga represa que servia para desova de cadáveres, ela também aprendeu a ficar repetindo "ú ú ú..." porque o pai ou a mãe com ela ainda no colo, percebiam eles que a menina não tirava os olhos do céu vendo aqueles pontinhos negros realizando um balé no espaço. Eles entendiam e diziam para ela "é o urubu, filha, urubu" e ela silabava "ú, ú, ú...". Assim antes de passar do "má-má" a mamãe, Sabrina havia ido direto do "ú-ú" a urubu. 

Grande descoberta aconteceu, logo depois que ela acabara de fazer dois anos, quando viu os urubus na sua própria rua. Em frente ao prédio não havia casas ou apartamentos - era só aquele Vale dos Mortos, silencioso, outrora depósito clandestino de gente, agora depósito temporário de lixo. Quando o lixo não cabia no gradeado que o condômino havia posto do outro lado da rua, os moradores colocavam ao redor do cesto de metal, pois, com a coleta regular, o bagulho doido ficaria por pouco tempo exposto. Esse pouco tempo para urubus, no entanto, era sempre suficiente. Foi isso que impressionou a pequena Sabrina. Os urubus, até aquele momento vistos sempre como animais do espaço, foram vistos tais como os cachorros vira-latas. "Urubu, urubu" dizia fazendo aquele pequeno gesto com as mãos como se chamasse um cachorrinho. O pai apenas achava graça e comentou com a esposa, naquele dia de descoberta, que Sabrina aparentemente confundiu os urubus com cachorros. 

No domingo de carnaval, o pai de Sabrina desceu do apartamento com duas sacolas de restos para ver a condição da rua e a quantidade de lixo. Se fosse pouco, colocaria as duas sacolas no cesto ou na rua, ainda que elas ficariam ali até à quinta-feira, pois o calendário da coleta no bairro indicava terça, quinta e sábado. O problema é que, também do prédio, muitos haviam viajado na sexta e sem saber que a coleta de sábado não seria realizada, quase todos os vizinhos fizeram o seus dízimos de detritos. A situação já estava calamitosa. Os urubus tiveram todo o sábado para revirar o quanto puderam todas aquelas sacolas. Pouca coisa foi deixada. Mas eles voltaram no domingo porque um vizinho do apartamento de baixo viajou no sábado deixando mais seis sacolas. Esse vizinho havia feito um churrasco na sexta. O pai de Sabrina só foi perceber tudo isso no domingo. Assim voltou para o apartamento com as duas sacolas de lixo na mão.

Contando para a esposa, ela decidiu descer e Sabrina fez um gesto para que fosse junto. A mãe a colocou no colo e lá foram as duas. Dois ou três urubus andavam próximos como se tivessem a expectativa de alguma novidade. "Urubuzim, urubuzim" dizia Sabrina do colo. Ela já havia aprendido os diminutivos. Ela também notou que os urubus estavam tristonhos. Talvez fossem daqueles que descobrem o lugar do banquete por último e acabam chegando no final da festa. As duas voltaram. Os pais de Sabrina decidiram não levar o lixo por ser pouco - e por uma questão moral - pensaram que se toda a vizinhança não percebia o problema que poderia trazer deixando tanto lixo na rua por tanto tempo, eles assumiriam o compromisso de não complicar o drama coletivo. O esposo então colocou as duas sacolas em outras para vedar melhor o cheiro. E deixou em um canto. Sabrina ficou por ali pela sala, volta e meia ia até a sacada, que possuía uma tela de proteção, subia no pequeno rodapé que a permitia olhar para rua enquanto dizia "urubuzim, urubuzim..."

Sabrina voltou para sala. Seu pai ligou a televisão e a deixou quieta lá assistindo os desenhos. Comentou com a esposa que sairia de carro para ver se encontrava algum açougue aberto vendendo frango. A esposa aproveitou então para ir tomar um banho enquanto Sabrina estava ali feito um pequeno Buda diante da tela. 

O pai saiu sem notar que não bateu a porta na fechadura. Ela ficou apenas encostada. A mãe, lavando suas longas mechas, ficou mais de meia hora no banho. Quando saiu, um susto. Sabrina não estava mais na sala. Nem precisou sair a procurar pelo apartamento porque assim que viu a porta, agora toda escancarada pelo vento, pensou no pior. A menina havia saído e, que risco, poderia ter descido as escadas sozinhas. Saiu em disparada e não achou Sabrina. Deu dois gritos. O prédio estava quase todo vazio. Quando saiu do salão de entrada, percebeu o portão menor igualmente escancarado. Será que foi ela ao sair na rua e quando voltou não bateu com força suficiente? Gritou o nome de Sabrina mais duas vezes. 

Ao sair na rua, encontrou a menina sentada na calçada. Um alívio. Mas ao ver o que ela fazia, um pavor: Sabrina havia descido com uma das sacolas de lixo. Abriu e estava retirando restos do almoço do sábado e atirava na direção dos urubus enquanto fazia aquele gesto com mão de chamar cachorro dizendo "urubuzim, urubuzim..."



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